segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
princípio de tudo
estrelas são como as almas petrificadas
daqueles que já nascem tão antigos
que sentem saudades
bem antes de ter vivido
pois agregam em si
a destruição de acasos
forjados no princípio de tudo
novas palavras
Edson Bueno de Camargo
não inventario novas palavras
estas me inventam
com boca de sede insaciável
e primaveras com dentes
as letras são códigos completos
cada uma
carrega um poema vítreo
olhos de peixes fossilizados
em complexidade
toda a palavra é criação
desde o princípio de tudo
até o último suspiro da matéria escura
desde a água vermelha
que me completa
até as pedras calcárias
produzidas em meus rins
efígie
Edson Bueno de camargo
o olho de uma mulher
é uma efígie
e todo aquele
que se aventurar
além do limite do horizonte conhecido
mergulhará em um vazio escuro
onde em frio espaço
em silêncio de pedras
de queda interminável
estarão todas as respostas
e nenhuma será reconhecida
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
plano
Edson Bueno de Camargo
um peixe
com um dado
desenhado no dorso
qual tatuagem
de um azul elétrico
de facas de aço novo
que corre o corte
e soa em harmonia perfeita
de pássaros pendentes
em fios que seguram o horizonte
entre postes
cinco linhas matemáticas
pauta natural
em geometria própria
a música do universo
que emenda vidro e cristal
(como grito)
e tudo são olhos
de ver verticalidades das montanhas
que ocupam silenciosamente
o fundo do plano
insetos iluminados
Edson Bueno de Camargo
vejo a cidade do alto
tudo são luzes
e movimento
todos fogem o tempo todo
de longe não faz sentido
e é belo
tem-se a impressão
que nunca se chega
que o ciclo nunca termina
os automóveis de longe
não são mais que insetos iluminados
“estos ojos que me fitam
no son más que espejos”
nome das coisas
Edson Bueno de Camargo
1
aprender o nome das coisas
andar sobre o fogo
a medida que estas se criam
a criança traça o universo
com sua língua singela
portanto precisa
dando nome próprio
às coisas próprias
depois os mestres
lhes confrontam o que consideram errado
reprimindo um mundo novo
e em criação
recriando um velho e deformado
2
o verdadeiro nome das coisas
apreende-se à medida
que estas se criam
todas as coisas
Edson Bueno de Camargo
I
qual a distância
do latido de um cão?
II
esta lua trouxe para minha casa
uns panos muito brancos
que alvejados de anil
doem os olhos do menino
(mais tarde se descobrirá poeta)
III
incomoda-me a lua cheia
e sua menina andando
de braços apertados
em uma braça de flores
que não estão ali
ou de braços abertos
tentando enlaçar o vento
com seus dengos
com olhos de regato seco
e sardas na cara
que pisa insolente
nas águas do rio em que me banho
(ou não serão mais
as mesmas águas?)
IV
pois que todas as coisas
tem um nome
e este nome as pariu
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
indiscutível
Edson Bueno de Camargo
há um desenho
perfeito em teus olhos
de acumular pedras da estrada
e icebergs a deriva
água pura
a salvo
para que se tome
um chá de gosto indiscutível
antes de se morrer
recados de pedra

Edson Bueno de Camargo
acumulam-se pedrinhas
onde goteja o telhado
bizarras arquiteturas
se desenhando
a bica encontra sempre
o mesmo lugar para pingar
a areia as trouxe de longe
de outro tempo e lugar
são recados de pedra
a empilhar coisas sem valor
segredos absortos
abortos
abertos
está frio e solitário aqui
pouco ou quase nada mudou
dos tempos em que os joelhos eram rotos
as idéias ralas
e o coração puro
quando a dor não era trabalho de cantaria
o sentir das idades
é uma fada senil
os tesouros perderam seus mapas
(o coito das cabras
não faz sentido também
e estão elas ai
a se multiplicar)
pedras nuas
Edson Bueno de Camargo
corpo de tesoura
(de metal animal)
de corte regular
de linhas femininas girando ao eixo central
destas de coser carnes
sangue em pequenas pedras
a língua mergulhada em aço reluzente
doando ao ar todo o espelho
espectro de dias e horas
o livro que contém todos os nomes
que nas bordas trazem profecias
de vates infantis e incompletos
de bandeiras em frangalhos
as fotografias espalhadas no lençol
tudo em desalinho o quarto
a janela de vento e cortinas vivas
o recorte da vida
em meio a uma descoberta tétrica
a tentativa de racionalizar o medo
enquanto o vento dobrava as bananeiras
e o quintal se transferia ao poucos para o futuro
e depois o esquecimento
em uma máquina de devorar a si mesma
nunca mais houve um dia como aquele
e o gosto de menta doce e pedras nuas
calor morno subindo a espinha
fôlego parado em afogo
quase um útero por um segundo
lua de água azul
e sempre a mesma memória
(quando nasci não chorei
arrancaram-me da morte sem meu consentimento)
desconstrução
Edson Bueno de Camargo
em que se dá
a construção do suicídio
nos três aspectos do abandono
ocaso das horas
silêncio do mundo
e ausência do verbo
a língua inflamada de vocábulos
que não são ditos
pesada corrente
que é o viver mesmo depois de morto (o sentido)
a palavra presa ao céu da linguagem
feito uma lanterna japonesa
um balão noturno antes da chuva
cintilâncias orgânicas
verdes noturnas
todas as redenções estão perdidas
todos os pássaros voam com navalhas
que cortam o ar e as veias
em asas de ruflar cirúrgico
os corvos buscam
os corpos dependurados
abismados
encharcados de rios e de pedras nos bolsos
os chocalhos das cascavéis
dizem um tanto
há algo indigesto no farfalhar das folhas
som lento de fogo se alimentando
de veneno fermentando nos dentes
vinho que nunca será bebido
na desconstrução do corpo
não há razões perceptíveis ou necessárias
nunca houve de fato um sentido no mundo
comágua
Edson Bueno de Camargo
ao primeiro passo antes do abismo:
qual o roteiro para o fim dos infernos?
como se dá de comer aos nossos monstros?
como se cultivam ervas amargas?
qual o veneno que me serve ao suicídio?
quando uma donzela deve dispor de sua honra?
quando a palavra fincada no desvão da mente
refluirá comágua nova da fonte?
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
tenho sapatos rotos

riscados de pedra e ladeira abaixo
tenho sapatos de pedra branca
e a terra insalubre de minha infância
o saibro que se desfazia ao vento e a água
e da infâmia acústica de meus ouvidos
tenho os pés lavados de agora
na torneira da chegada
e asas de santo vagabundo de estrada
tenho a beatitude do agora
e o medo obscuro que nunca me chegue a morte
tenho asas dobradas dentro de sapatos rasos
rasgadas à seda de uma lágrima
calçados de caos e areia diluviana
antes a dúvida perturbadora
dos incensos e sírios nas igrejas
da fé não respondida
à certeza que carrego agora
folhas de vento

Edson Bueno de Camargo
a lua se quebra
em penhascos de faca e gelo vivo
escamas de turquesa fina aguda
plumário de serpente
folhas de vento
suçuarana de sopro
suave fumaça leve
que dá vida ao barro
irmão coiote
caminha sobre as línguas da pradaria
sobre as pegadas dos que já são extintos
dos que sempre estarão
onde o velho jaguar pisa
nasce o caminho
que se revela
a bíblia do homem não é mais a do animal
desfez-se a harmonia
as manchas das costas de felino
escrito está o nome da criança deus
porção branda da brisa
serve de alimento
às dores da rocha mãe
o parto do tempo
areia esculpindo o mundo
a cria dos peixes à superfície da água
respirados pelo grande espírito
que é pai e mãe ao mesmo tempo
inflamam os pulmões da terra
cultivam vida até onde se pode levar
tornar a lembrar o que vai acontecer
que a chuva já caiu aqui ontem
e cairá lavando as dores e o medo
por pior frio
há primavera
alento e cores
soa o tambor dos olhos
soa o coração nos dedos
soa o trovão
chuva que chega
volta sempre a carne para meus ossos
xamãs

Edson Bueno de Camargo
o poeta é sacerdote
da própria religião
xamãs inebriados
pensam enganar a realidade
na tentativa de ludibriar a morte
clérigo imoral
sua ética
incorpora as realidades de todos os mundos
e outros ainda
como Hermes ou Exu
pendente entre as cosmogonias
carrega mensagens dos deuses
(para cima e para baixo)
um bom poeta só o será
ao encarar a sua extinção pessoal
Rimbaud foi
bruxo a seu tempo
usou a extinção de sua quintessência
e fez poesia além da palavra
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
mapa do mundo
Edson Bueno de Camargo
tomar tijolo por tijolo
a palavra
constrói arcos
perfeitos em sua simetria
o barro cozido
se confunde com a terra e o fogo
é o âmago do planeta
nas linhas do corpo
a pele é um mapa do mundo
inertes
Edson Bueno de Camargo
ensinei à água
que corre
contra a gravidade
o alfabeto das coisas inertes
esta tão leve
que
a luz não a toca
fica em suspensão
gotas elétricas
que buscam
a luz das estrelas
sempre é dia
de se voltar para casa
beleza e alimento
Edson Bueno de Camargo
se lírio sorve
talo taça
a abelha
brinda
flores produzem
aos olhos desavisados
beleza e alimento
quando em verdade
estão a exporem seus sexos
incômodo
Edson Bueno de Camargo
a pérola
para a ostra
é incômodo
para o poeta
a palavra
do incômodo pois
se produz o belo
carvão mineral
Edson Bueno de Camargo
curo feridas cristalizadas
um fóssil da dor na rocha
de minha pele
carvão mineral
que porta a possibilidade
de brasa
cozinhar no cadinho
aço do brilho dos olhos
ferro e carbono
humano sedimento
ao lento do tempo
depositado
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
pele de calcanhar
Edson Bueno de Camargo
para a camarada Fátima Nunes Silva
para a camarada Fátima Nunes Silva
quando criança no Cariri
amiga minha
tinha os pés no chão e no pó
o sol arrepiado no quengo
criança só se podia nas horas que sobravam
dia a dia
dedos solitários
e solidários às pedras
e seus carinhos
sertão de duros espinhos
uns na carne
outros na alma
(uns nunca se esquecem)
da cacimba a casa
pote sobre a cabeça
olhos em contrição ao céu
chuva não
ter uma sola sob os pés
que não fosse dura pele de calcanhar
(chinelas bem guardadas em casa)
só em dias de feira e igreja
nas raras festas em que se celebre
não se sabe o que de alegria
(deus de olho em tudo
sem fazer nada)
um par de sandálias de tira
(destas baratinhas
de borracha sintética)
com status de calçado de luxo
lavado até o fim do branco da palmilha
a linha funda do destino
cortava a epiderme e solado
(endurecia o couro e o espírito)
até às primeiras letras foi uma luta
rebeldia e silêncio da morte
para quem come pouco
nada é tão perto
demorou muito sapato
sal dolorido
Edson Bueno de Camargo
as velhas carpideiras
derramam um rio salgado
nos granitos abandonados da rua
olho de sal dolorido
difícil de digerir
vermelho e amargo
seis azulejos brancos da parede
solidão da ausência de cor
não pesam ainda o amarelo dos anos
o que espera
não pesa mais que o ar
silêncio sem destino
cortejo de flores murchas
coroa de brancas e amarelas
o que foi possível para agora
o que lhe cabe de sua sina
formigas mordem a terra
e escavam suas pequenas vidas
são suas casas também suas covas
aqui se operam seus ciclos
o homem se iguala ao inseto de seis patas
quanto mais perto está
do fim de sua jornada
sua roupa se torna mortalha
o outro mundo também é aqui
aquela tarde
Edson Bueno de Camargo
não havia flores na janela
nenhum verde conversava com aquela tarde
toda a terra agreste
como este gole de secura
como este galo que não canta
que tomava madeiras velhas
e cercas malcuidadas
o ar caminhava em grandes blocos
nenhum perdão para o calor
pedaço de ferro e ferrugem
ferramentas que perderam a função
junção de entroncamentos mudos
esqueletos de canos expostos
saudades de gotas na torneira aberta
cada dia que nasce
é de uma tristeza de ninho vazio
tão grande que abraça este ermo
de vidro esperando o corte
corpos exportados para a distância
cada vez mais longe
cada vez mais nunca
domingo, 28 de junho de 2009
Rio Claro
Edson Bueno de Camargo
a flor da serralha
amarela meio Sol da tarde
meio gema de ovo cozido
as folhas escalas verdes
flor de todo lugar
e bombardeiros sementes
no vento sem peso
Rio Claro
a massa de ar carrega leve a rua
de braços abertos e olhos fechados
minúsculas ondas na areia
um deserto miniatura na porta da casa velha
abraçados pelo oxigênio do dia
corríamos descalços
como se livres dos sapatos
estivéssemos também da vida
minha avó no fundo da sala
(e seus bordados)
meu avô sentado nos degraus
pitando a palha
depois açúcar cristal de colherinha
com o gosto áspero de primeira infância
o que era simplicidade
para nós era um prêmio
eram verões de dias longos
camisa suada
e céu de aquarela
calças curtas
e canelas esfoladas de subir em jabuticabeiras
grandes bicicletas de aros longos
mal cabíamos de satisfação
perseguíamos o Sol
para que o dia não terminasse
meninos-pássaro
Edson Bueno de Camargo
esta manhã
meninos-pássaro
partiram para o Sol
tremeram de frio na primeira hora
e voaram
assim que o dia tocou suas asas
a grande pedra de céu
que nos cobre
mãe das coisas e das estrelas
era cinza e terna
o azul só mais tarde
esta tarde talvez chova
já sentimos a ausência dos meninos
e choramos
sem estes a terra envelhece
as fogueiras libertam fumaça branca
colunas que se erguem para o alto
e se dobram nas correntes de ar
o ar nestes lugares
corre como um rio
quiçá levem nosso cheiro
àqueles que partiram mais cedo
(e voltem um dia)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
o oráculo
Edson Bueno de Camargo
1
o oráculo se abaixa à terra
respira profundamente o seu cheiro
experimenta o gosto de seu sal
e escuta os gemidos
das multidões que ali passaram
o ferro tomado à terra
será devolvido em sangue
o que foi tomado pelo fogo
retornará em incêndio
o oráculo também chora
seus dedos tremem
e brotam-lhe folhas
há galhos de árvore no templo
verdes mesmo em face ao inverno
2
aqui dentro é perene primavera
não abram as portas
para que se conserve assim
caminhe seus pequenos pés
nos ladrilhos do pátio
pedra
Edson Bueno de Camargo
para Jorge de Barros
esconde a face
dos exilados
objetos em pedra
pedra-pão de duro comer
dente de cerâmica preta
e corte de obsidianas
pedra-pé
e suas plantas voltadas
faces à terra seca
ranhuras de rocha viva
famílias de pedra
nomes minerais
vermelhas
leprosários remotos
para exilar todo aquele de cepa rara
os que não coagulam
os que não coadunam
falam em língua de fogo
(como profetas)
e ferroadas de zangões
ao abandono
da palavra esfacelada
mica de pedra
sal
que se perde em graus
e os gumes de cobre
ainda seca a boca
a sílica do amargo da terra
blanco
aqui está o cálculo calcinado de enxofre
fogo PROMETido
que queima lento e doloroso
outono
Edson Bueno de Camargo
a rua
desdobra
em passos úmidos
neste outono
antecipação de forte inverno
o inverso da casa
é o desabrigo
buscar nas luzes confusas
o farol
o relógio
a alfanje
a ilusão que em tudo permanece
é o mesmo tempo agora
o que foi no princípio de tudo
suspeita-se que ainda é o passado
e este momento
um sonho ruim
terça-feira, 16 de junho de 2009
régua
Edson Bueno de Camargo
André e sua régua de medir mundos
caminhar por cadeiras altas
como cadeias montanhas
a tomar a medida de tudo
do batente da porta à ponte
em processo de construção do sonhar
André e seu apito de trem imaginário
o vapor e a fumaça preenchem a casa
de trilhos barulhentos e máquinas pesadas
coisas de construir coisas encadeadas
seu trenzinho azul da cor do planeta
a conduzir o arco-íris da luz de seus dentes
nada é por acaso
Edson Bueno de Camargo
esta noite
e seu cardume de sonhos afogados
água turva
que cobre o corpo da desesperada e inocente suicida
e seu colar de flores e ramos silvestres
(não confiou no canto do amado
que louco lhe confessou tudo)
cobre a superfície desta poça
de vidros e escamas
e tudo mais que é transparente e brilha
canto lírico
de barcos à deriva e a tripulação louca
rebentam em bancos de areia
onde esperam sereias
seduzem para o banquete
nada é por acaso
muito menos esta noite estreita de obuses
campos incendiados
em uma sinfonia de graves desafinados
de trompas mudas como a voz dos elefantes
(no entanto escuto)
a chuva cai
indiferente
assim como as lágrimas
assim como o calar
palma
Edson Bueno de Camargo
derramar
da palma da mão direita
toda a escuridão líquida
que se acumula
aprofundar
no vaticínio do sonho
medo do absurdo
de que ainda respiro
o mesmo ar a procura de guelras
que não estão
o ouvido queima a cada acorde
do dissonante som
do universo que nasce ainda
a ausência da luz devora mundos e estrelas
grito mudo da destruição
rompe o espaço
como uma luz que não existe mais
nas asas da borboleta
ao ruflar agora
todos os códigos decifrados da teoria do caos
pois tudo é conseqüência
de um único gesto
domingo, 17 de maio de 2009
não sou mais sábio
Edson Bueno de Camargo
minha mãe olha-me a face
veja que os fios de minha barba
imitam o algodão ao Sol
como teus cabelos
agora estou tão velho como tu
e no dia que mais quero os teus braços
sou tão pesado que nem posso me carregar
minha mãe
o tempo passou para nós
e não sou mais sábio que ontem
dos meus dias de herói
só carrego cansaço
da trajetória que sei
só o caminho dos astros no céu
à passagem do zodíaco
mas ainda posso ver o Sol nascer
pelo vidro de meus óculos
esquentar o frio da noite das canelas cansadas
na quenturinha do sentado na soleira da porta da rua
minha mãe posso dividir um sorriso
e te abraçar um abraço amigo
te recontar histórias e cantigas
antes que o dia termine para nós
vísceras sentimentais

Edson Bueno de Camargo
mulher que amo com as tripas
que teu amor me alimente
que se avolume no ventre
que se ruminem as renúncias
digira todas as dúvidas
e o amor seja longo e contínuo
mulher que amo com os pulmões
que se inflem em fogo a cada respirar
queimando cada gota de oxigênio
em tua homenagem
e este amor me deixe sem fôlego
e a cada beijo carbono
não me sufoques nunca
mulher que amo com o coração
que todo meu sangue não seja suficiente
que se esculpa com carne e gelo estrutura
das todas que se constroem em vermelho vivo
que seja corda incontrolável
de relógios que devoram o tempo
e ainda assim permanecer o amor
mulher que amo com músculos e tendões
que minha carne te vista no frio
e se não suficiente uses minha pele
cubra a tua nudez toda noite
que seja tão quente cobertor
que não mais sintas frio nunca
para que não te esqueças no claro
este amor
mulher que amo com o fígado
e sorvas bílis como prova de amor
amor cultivado em humores com ódio
até que os olhos se esverdeiem de vez
mas que adestres esta toda cólera que trago
porque a fêmea é a domadora do macho
e é teu ventre geratriz do universo
mulher que amo com o baço
e converta esta douçura em açúcares
que bebes com lábios ávidos
onde toda a dor não é amarga
e convertas todo fel que há bebido antes
mulher que amo com os rins
e produzo jóia elástica
pedras de calcita e sal
para construir castelos de sonhos
e dedico a ti todas as cólicas
e a tortura nauseante
de estar dependurado em parede
mulher que amo com a gônadas
e por ti imito Urano se necessário
e sem estas ainda sou teu escravo
mas se me preservas
serei de teus desejos criado
e contudo que sou um homem
de vísceras sentimentais
pois te amo com o corpo todo
além do sublime desejo
quarta-feira, 13 de maio de 2009
pálpebra
Edson Bueno de Camargo
a minha pálpebra esquerda
carrega o peso de uma casa
casa de amplos ambientes
salas e objetos em desordem
o peso cronômetro
aumenta ao movimento do ponteiro
a minha pálpebra canhestra
já desdobra
como um vício
porque a água que a casa traz
já comeu séculos de vento
e a chuva precipita à chegada da tarde
monjolos batem igual a um ponto
batuque de grão esmagado
ritmo sem pressa da farinha grosseira
das que os dias nunca terminam
e nunca ninguém passa fome
a pálpebra verga à noite
quando finalmente durmo
asas de anjo
Edson Bueno de Camargo
livro com asas de anjo
traz palavras de ave
penas brancas ou azuis
poemas inflados de ar
palavras de peso menor
nunca chumbo, pedra ou dor
asas de morcego podem conter
a última luz do luar
flores de dente de leão (em fuga)
ronronados de gatos pequenos
canto do galo que acorda o sono
as coisas que foram esquecidas
um livro que voa à noite
tem que posar à tardinha
pôr-se a dormir em seu ninho
a digerir os sonhos roubados de véspera
boa hora
Edson Bueno de Camargo
abutres voam baixo
círculos perfeitos
matemáticos do ar e éter
constroem rotas magnéticas
onde o centro geodésico é a morte
é necessário morrer
para que nos visitem
estes anjos alados de negro
convidados de primeira e boa hora
nossos sonhos não tem a menor importância
nossas crenças de nada valem
também posses e poses não mais influenciam
para os que banqueteiam nossas carnes
todos somos iguais e requintado
bom alimento
a morte é a única real democrática
é anti-demográfica
é voltar aos nossos mais primitivos elementos
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Goiás Velho
parte
Edson Bueno de Camargo
onde em minha índole.
se esconde o ser feminino
e que me fala esta parte
ainda obscura em mim
tenho aprendido
a ouvir esta voz quase calada
sussurro suave sublime
sob subjugo cruel e impiedoso
de patriarcados e opressões religiosas
mas sinto:
carrego mais da grande mãe
da terra que criou tudo e chama tudo de volta
do que tenho me apercebido
há uma geradora de início de tudo
há uma criadora de mundos
há uma necessidade maternal
sob a pele grossa e dura
de criar a verdade com a palavra
palavra princípio feminino por excelência
pois as coisas se criam assim que nomeadas
a poesia
é a mulher onde está o melhor de mim agora
abraço
Edson Bueno de Camargo
quando fecho os olhos
um escuro sólido me envolve
confortável
como abraço
de velha mãezinha
a qual abraça o filho retornado
depois de muitos anos de guerra
teu desenho
Edson Bueno de Camargo
teu perfil
risca a noite
em perfume que indica
tua sombra
quase tátil
pelo olfato dos olhos
com ouvidos ou sem
ausente a luz é quase o mesmo
e ainda assim busco teu desenho
com o feixe nervoso da ponta de meus dedos
mesmo que com a imagem lembrada
concebo cada detalhe
ciclos passados em turvas turmalinas
estas que emprestam sua cor à noite
quinta-feira, 26 de março de 2009
diagramas
Edson Bueno de Camargo
abrir a porta
entre diagramas
de vidro recortado
por dente de diamante puro
agudo
móbiles
de equilíbrio precário
teia de aranha
gotículas
todas as linhas
de papel em branco
reconto-me
priva
Edson Bueno de Camargo
o silêncio não fala
priva
não ouve
a ausência de som
há uma folha que cai
em algum canto desta sala
pétala branca
de flor que não está viva
babilônia
Edson Bueno de Camargo
há em todos
estes edifícios
algo de
torre de babel
em língua
que todos falam
e ninguém entende
de jardim da babilônia
onde todas as plantas já estão mortas
ossos
Edson Bueno de Camargo
os ossos
são o cavo do lenho
como das árvores
onde corre
nossa seiva
desde o tempo de nossos avós
onde se formam
nós
de duro desate
são nos ossos
onde nossa alma
é mais frágil
percorrem dentro dos músculos
nos moldam e nos sustentam
e carregam o peso do tempo e do frio
também suportam
(não sem o seu preço)
dores ocultas
e inconfessáveis
olho pássaro
Edson Bueno de Camargo
um inseto com cores mudas
brilho de vidro recém quebrado
estilhaços de janelas azuis
e suas dobradiças com barulho de tempo
de lascas de madeira ao Sol e intempéries
desenho de geometrias não planas
cuja leitura traduz conhecimentos ancestrais
as roupas seguram o vento e se dobram
fazem um balé estraçalhado
os cordões esticam
os varões de bambu cortados na Lua minguante
(para nunca apodrecerem)
um olho pássaro
percorre o quintal inteiro
(sentir os pés se descolando do chão)
mesmo hoje flores deslindam perfume
a grama cresce sem que lhe aparem
as casas brancas entardecem sonolentas
quinta-feira, 19 de março de 2009
líquida
Edson Bueno de Camargo
a chuva é fantasma
esta tarde
(e todas que a sucederão)
e tudo se dilui
nesta água que não existe
onde deslizam naufrágios de planadores com dois pares de asas
e cortes profundos na superfície
no entanto
é líquida
e se cicatriza
viço
Edson Bueno de Camargo
era uma daquelas tardes sem sonho
suor dormido
e pálpebras pesadas
com mesas e toalhas xadrez
insuportáveis
e as ondas de calor no asfalto faziam vertigens
que se no deserto
diríamos oásis
você me pediu viço
e equivocado dei mais vinho
e murchei mais um pouco
quando seus olhos ficaram opacos e distantes
(percebi que naquele momento algo entre nós se perdia)
talvez houvesse sal demais
entornado à mesa
(e quinhentos diabretes riam de nosso azar)
ou tivesse passado um pouco das dez
e estávamos irremediavelmente bêbados
e tudo que fosse vidro e vazio
jazia aos cacos no meio fio
Wall Street (ou rua do Muro)
Edson Bueno de Camargo
o poeta chora quando
libera flâmulas vermelhas
pelos olhos
e cintilam estrelas estéreis
que iluminam o céu
de uma Bagdá e seus prédios em chamas
as crianças correm atrás dos tanques
(igual a quando éramos garotos também
e o velho caminhão da fábrica passava)
as colunas de fumaça negra
são os sonhos
de um deus enfurecido
(mesmo que tenha sido esquecido)
-mãezinha hoje não tenho mãos
roubaram-nas os cobiçosos
pelo brilho do duro carbono
meus dedos brilham no colo da damas
nas noites iluminadas de Paris
não reconheço este
chicote e o sal que me jogaram nas costas
puxei o gatilho tantas vezes
que criaram calos nos dedos
e secou o arrependimento que me corria aos olhos
o chifre da lua
goteja sangue enegrecido
e aqueles que brilham
com membros decepados
descansam na beira da estrada
a espera dos comboios azuis
em Wall Street
garotos marotos brincam com nossos olhos e orelhas
em seu jogo de ganhar e ganhar sempre
fazem uma grotesca ciranda
arremessam dentes de ouro para sua aposta
brincos de besouros vivos
lágrimas congeladas no escuro
(antes os braceletes tinham suásticas
hoje estrelas de David, sob os ternos pretos)
os tijolos da Rua do Muro estão assentados
com medo e excrementos
é necessário sangue para seu lucro
são precisos porões e “cala-bocas”
chamam de dinheiro duas pequenas mãos decepadas
o dedo do gatilho calejado de fogo
o velho de barbas brancas
já não suporta mais o cinismo
e nos abandona
tudo se arca ao tempo
menos o medo dos fracos e o desejo de ouro dos loucos
crisântemos nascem selvagens na calçada
e renascem quantas vezes
a sola dos sapatos caros os esmagarem
e sempre e sempre esmagados em um círculo sem fim
tenho sede
dá-me de beber da água
que tens guardado
pois os que tem sede de justiça serão saciados
(só não sabemos quando)
tenho fome
dá-me de comer os que tem negado pão
para que fique mais caro
(e ficam ricos)
tenho sono
dá-me abrigo
nas casas que tens hipotecado e colocado em usura
(e tantos dormem nas ruas)
e não sei se dormir
volto a acordar neste pesadelo
ou no sonho
na costa da África
onde a serra parece as costas de uma velha leoa
o menino vê o mar e sorri
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
quatro sementes
Edson Bueno de Camargo
quatro sementes de maçã
sobre toalha colorida
o menino brinca inadvertido
sem que se aperceba
com quatro possibilidades de árvore
somado o menino
mais uma
gen
Edson Bueno de Camargo
nutre o gen e germe
de coisas pequenas e quinquilharias
agradas amigos e ancestrais
pedras de lugares diversos
flores secas
e gemas de facetas brilhantes e de pouco valor
ouro de mercador
moedas de países que nunca conheceremos
o sonho devora vasos e vasos de água
aqui é lugar algum
- andarilho
lava teus pés
e pousa esta noite
asas de vidro
Edson Bueno de Camargo
anjo de asas de vidro
escorrem pelas tuas costas
líquidas
escamas de peixe
perfume de pequenas margaridas
secando sobre lápides invisíveis
odor de tardes vermelhas
faz lembrar lavanda verdadeira
caídas e caladas flores roxas
em escadas de jade
lisas como o talco pedra moído e branco
no vento que move teus cabelos
pequenas salamandra amarelas
que incendeiam os olhos sonolentos
a devorar o ferro de pregos velhos em madeira podre
os ferrolhos da porta que range
sem o lubrificante óleo de baleias assassinadas na praia
o som coagulado em ferrugem fluida
que em outros momentos e lugares
chamaríamos sangue
que negro sonda a noite de corações latentes
que vibram com a música patente das colheres com pouca prata
contendo sal
abram os ouvidos do metal
para que soem sinos de dentes brancos
que brilham como as primeiras gotas ao Sol
água corrente e fresca
dos cântaros de barro fresco
alisados com seixos rolados em espuma rala
que trincam ao rápido esfriamento
(revelando-nos segredos)
o cálcio que doam os ossos da terra
quando moinhos de pás serpentes
roubam a força dos ventos
e transformam e transbordam
grão em graça
primeira chuva
Edson Bueno de Camargo
1
no caminho
uma rosa caída obre a calçada
galho arrancado á força
e deportada para o cimento
membro decepado de uma roseira
e com tal violência
que a rosa não se apercebe calçada
tem memória de roseira
e formato de pedra
2
uma escada para o nada
o vazio entre lugar algum e coisa nenhuma
nunca foi usada
de tal modo que o desmonte de horizontes
não dependerá mais só do Sol
3
há uma mecânica de devorar tempo
desde o princípio de tudo
se cultuava no caos que nos amava tanto
e nos espera
quer que voltemos ao seu ventre
4
á primeira chuva
a rosa já se embebera de morte
não era mais nada
um galho seco
comer maçã
Edson Bueno de Camargo
tenho o estranho hábito
de comer maçã olhando o horizonte
esta insondável natureza
de degustar nuvens com os olhos
em insolência aristocrática
tudo o que envolve
além do sabor da fruta
se impregna de gotas de chuva
e azul do céu
ou em tarde frias e cinzas
em que o paladar se torna fumaça
e toda a neblina do cheiro
devolve tudo como leve incenso
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
prata
Edson Bueno de Camargo
cravar palavras em espelhos
faca aguda de prata
que reflete minha face
dissolver em múltiplas faces
como se estilhaçasse
a própria verdade em tantos reflexos
que devorassem a luz
com tantos crispares
(há razões que desconhecemos,
e pelas quais ainda assim lamentamos)
beber os filamentos de vidro
delicadamente misturados à água
como que com isso bebêssemos seu nome
e depois nos untássemos com terra líquida
originária de terremotos
migram narcisos em vôo ambíguo
os ventos que carregam flores
não choram nas margens do rio
transportam a casa do sol nascente
nos sonhos do menino que viaja nas cordas da guitarra
lembranças são como a brisa no quarto
carregam o pó dos ossos velhos
amargo
Edson Bueno de Camargo
afinar-se com a palavra amargo
e todo o significado que esta traz
o medo inconstante
da água em movimento
trazido com a estação das chuvas
vento breve que arrepia a espinha
em tardes claras
o inverno que insiste em dar a sua voz
mesmo já começando a primavera
as flores caídas sobre o asfalto úmido
dão à retina
todo o amarelo possível
há acúmulos nos meios-fios
onde caminha a água
a noite obstrui como a vida
toda a luz que é
precisa para o ver
esperamos todos os anos
as tardes mais longas
deixando para trás
as noites de escuro não trespassável
pedra
Edson Bueno de Camargo
dá-me uma rocha
e seus quatro cantos
voltados para a origem dos ventos
dobrando-se até que sobre uma rosa
dá-me ás pás do moinho
e movimento para transformar
grão em trigo
em alquimia de transformar e ser transformada
ai também se dá a roda
a grande mó e seu ruidoso trabalho
ai também se dá a rocha
esculpida a roda na pedra
dá-me um ramo de trigo
e suas bagas que chamam o ouro
e este ouro não se acumula
consumido mata a fome
e este é o único que vale de fato
dá-me uma roda
e esta movimenta o carro
e seus raios de fogo
cintilando o ouro do circular
uma roda de carro não é nada
sem o vazio que preenche seu meio
para que passe o eixo do carro
a roda
do vento
do moinho
do carro
só serão pelo conhecimento do homem
e do seu dom de transformar
a pedra em movimento
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