quinta-feira, 6 de outubro de 2011

os anjos e os santos




Edson Bueno de Camargo

os vidros
bebem os reflexos do dia
lento
a luz se extingue

ai os anjos e
os santos espreitam
nas encruzilhadas
observam atônitos
o medo disforme dos esquecidos
a boca escancarada e sem som

o prédio é música diatônica
o canto da grama crescendo
a primavera está por todos os lados
flores urbanas enfrentam a morte

lacônico
o Sol não responde
as perguntas tortas desta tarde
e a figueira descansa seu sono dos dias

o cromo das costas dos dedos
as romãs foram esquecidas

o velho se repete no novo
de forma indefinida e definitiva
(na memória tudo mente)

mantra






Edson Bueno de Camargo

quando
trouxeram o corpo
da mãe
envolta em algas apodrecidas

enrolaram seus cabelos com as mãos
e fizeram do sangue que escorria
e do pranto
a mortalha

porque o caís à noite
é visto como uma muralha instransponível
e os titãs de chapas de aço enferrujados
fazem da estrutura pouso

são luzes irreais
e mal iluminam a faina
de mãos e bocas estrangeiras
moídas e feitas carga

e corre o cheiro baço
e o perfume inconveniente
das vaginas das moças prostitutas
dedicadas e tensas
no aguarde de sua vez de trabalhar
no descanso do sêmen derramado

e os pederastas exilados
sempre voltam de mãos vazias
mas suas mães os esperam
(descer à terra é um parto que se repete)

e as pedras que se derramaram no mar
dormem profundos sonos
sob às águas barrentas
e o sumo dos navios atracados

e cada peixe que sobrevive no canal
é uma sepultura que nada
em seus estômagos jazem
tantos marinheiros devorados nas profundezas

e agora este luto infinito
que se entende como corda no horizonte
e em seu canto de corais engastados às âncoras
o mar rebenta como um mantra

óleo



Edson Bueno de Camargo

o olho caminha pelos ladrilhos
procuro o espelho
onde não está mais
(mais uma vez
traído pela memória)

a casa antiga
insiste em
esconder-se nas paredes da nova

como se seus escombros enterrados
mantivessem-se vivos
(a custa de parcas lembranças)

as sombras macias do tempo
de seus fantasmas com cheiro
de sal
(um mar no interior de cada aquário)

enganam-se todos
que acreditam em memórias pétreas
estas traíram a palavra
e a palavra é tudo que nos resta
esta língua inchada de versos apodrecidos
que tem de serem extirpados com regularidade

a calva branca das letras
ósseas nadadeiras de celacantos
esquecidos de serem extintos

as noites mal dormidas de pesadelos
e esta palavra que brota do chão
como óleo negro

a alma da casa nova
às vezes se adoece da sepultada

Babel



Edson Bueno de Camargo

a linguagem
se veste impossível
à medida
que cada um
tem própria língua

Babel ainda se faz todos os dias
uma torre se erige
de dentes e sangue

cingida dos ossos negros da palavra
medra
sobre a superfície branca

cascos negros




Edson Bueno de Camargo

o céu se pinta
aquarela medonha

sob este piso que se move
homens trágicos
esperam por sua sentença

este céu é cavalo de cascos negros
cavalga trôpego precipícios
olhos de opala em fogo
todas as cores do arco-íris


:
mas agora
nada se vê
tudo é obscuro véu

Lilith


Edson Bueno de Camargo

entre a escolha
entre a mulher virtuosa
e a que caminha sinuosa

embora cindido
eu prefiro a que tenha asas

que me beije como um anjo
e escolha a posição que quiser

preto





Edson Bueno de Camargo

ônix
absorve a não refração
nega ao olho
o espetro

turmalina
carvão
filhos e filhas da terra
seu sangue mineral
a correr candente

de outra cor negada
basalto
asfalto
betume a aflorar no deserto
em Mar Morto

tudo pedra
tudo pó
todos nós

sexta-feira, 8 de julho de 2011

precipício



Edson Bueno de Camargo




ando sob o minguante
firmamento de escuro azul aveludado
abriga esta noite infinda
de cabras de pés de cobre

facas de aço vegetal
que crescem dentro de pedras vivas
ósculo orgânico dos confins da terra
fala com a língua de diamantes
( e tudo conspira o universo)

palavras de alabastro
palavras petrificadas
palavras borboletas
com asas lâminas de vidro
palavras runas
a contar os destinos

esta noite
dormir como um anjo
asas pregadas na rocha do precipício
sangrando pelos pés


ânforas



Edson Bueno de Camargo

toco teu ventre liso
de oceanos azuis elétricos
e rosas brancas tocadas pela gravidade

em tudo busco serenidade
mas tua pele é tempestade e febre

senhora da maré cheia
tão completa de luas
como meu dedo de contar estrelas

(contudo
não posso tocá-las)

véus de terra
cobrem teus cabelos
de raízes fundas
a beber o sumo da terra


mulher de tronco vegetal
e ancas robustas de madeira ígnea
dá-me tuas ânforas de água fresca
de desatar o gelo das profundezas


eu
abandonado do deserto
a partir em busca de mim
em teus olhos de planície
em teus seios de montanha
respirando as dunas de imensidão

(contudo
sufoco)

as pedras de Cusco



Edson Bueno de Camargo




as esporas
dos galos vermelhos da manhã
riscavam as pedras de Cusco
com aço e fogo

tinir de sinos
e o bronze do sol

as moças lavavam
os cabelos na fonte
e a fronte dos cavalos
também era vermelha

porque a grama
ninava os meninos
e suas esporas de prata
e abotoaduras de ouro
e dentes de metal
tudo brilhava ao sol

despiam-se os milharais
no fim da safra
um imenso amarelo
e seus grãos

e era verão
no coração dos homens
e baixo ventre das mulheres

no calor da tarde
a grande árvore
abraçava a praça

e ao longe galos novos
testavam os quintais
bicando o oco do horizonte

lâminas



Edson Bueno de Camargo

ancoro estas utopias
em asas de borboleta
hastes duplas
delicadas
e precisas
como lâminas de cortadeiras

meus olhos já foram inundação
e secaram tantas outras vezes
(e medraram nos esquecimentos)

açude pisado no barro
das estrelas desta noite

respire o frio possível
no ar da alunagem

(as rãs
em concerto
vigiam a nova prole)

a casa



Edson Bueno de Camargo

a casa
um fantasma
em si mesma
paredes fixas no etéreo
nunca se movem do lugar marcado
mesmo quando as margens dos rios
se esticam com as monções
e depois retornam ao seu desenho
deixando para trás
poças cheias de peixes
(para a felicidade dos meninos)

a casa
mesmo depois de finda
ainda permanece em seu requadro
sob a mata
tijolos abandonados
é lembrança vívida
de pulmões e esteios negros de fuligem

a casa hoje
é um quadrado de terra batida
mas tem um coração pulsante
que sabe seu sangue
pelas raízes das mangueiras
e das laranjeiras
agora selvagens

a casa estará sempre ali
dentro de minha memória
onde permanece

sexta-feira, 27 de maio de 2011

lento incenso



Edson Bueno de Camargo


as rosas apendoam no jardim
grandes buquês brancos
anunciam o fim do verão
tempestades de fim de março
a entoar hinos à gravidade

são sinos a tinir todos
com o som de trovões
de carvão ardente

este pedaço de mundo é a paz perdida
cela de monges montanheses
em pérfida misantropia

as dores do luto
não abandonaram
o choro convulsivo
de grandes cinzeiros cheios

precipita a fina garoa
e o cigarro queima lento incenso

o poema não se conjumina
à xícara abandonada
que faz aniversário de uma semana onde está

amianto



Edson Bueno de Camargo


vulva com dentes
de amianto
a mastigar o câncer de cada dia
fornalha de vitrificar entranhas
azulejos vermelhos
de sangue e água
ao calor que ali espera
guardar ternos
em conforto
de aquários precipitados

catedral de giz



Edson Bueno de Camargo


1

sólido silêncio
catedral de giz
esqueletos microscópicos calcinados
de tempo
até a cal

estuque a suster paredes eremitas
herméticas e hermafroditas
(o ápice da perfeição de dois mundos)

nada a dizer ao
canto do galo
de bronze
sobre a velha igreja barroca
e o tinir do sino oco do mundo
os metais vazios e seus dedos sangrentos
e gangrenados

o sol a pino
seca as sementes de amanhã e de toda a esperança
as calçadas divagam solas de sapato
e bitucas de cigarro

o vento mede as distancias
entre o sol e a terra e a terra e a lua
por duas vezes

grãos de areia contados em estrelas
e cisternas secas
e potes astecas quebrados

2

um cão corta o passeio
com feridas abertas
com lástimas de morte e saudades

um cão serpente
escamas lustras
de olhos luzidios
come os cabelos
do pesadelo

um cão menor
morto
jaz nas esquinas de água azul
como água fervendo

3

olhos de opala
(de mil cores brilhantes e vibrantes)
caleidoscópio de raízes e bétulas
espectro luminoso de toda a criação

4

ainda assim
corre todos os dias à espera

a estrada é a mesma de antes
ainda escorre o sangue abissal
dos dias ocos

beija a pálpebra com toda a pestilência
e é possível amar aqui
sobre os trapos rotos
que se transformaram estes dias
para todo o sempre e agora

mariposas



Edson Bueno de Camargo


um cão coleta seu latido
em uma lua descalça
que atravessa a rua molhada
diante de minha casa
onde o granito
a estilhaça em miríades
de pontos brancos

latido que se atreve ao brilho
luz de atrair mariposas
silício fundido e tratado
mecanismos complexos
e vácuo

não são visíveis as estrelas e vagalumes


tecido



Edson Bueno de Camargo


o poema se tece de muitas linhas
é tecido
pelo fio da linha
que compõe o contorno de cada palavra

palavras tecidas
já que tessitura vem de tecido
palavras de mesma raiz ancestral
fio a fio
meandros e laçadas

o texto é tear de palavras
lançadeiras diversas do verbo
entrecruzam o passado e o futuro
ferramentas de precisão e escritura
cálamo
pincel
outros

caminho para a tinta
descanso para o verbo

o umbigo




Edson Bueno de Camargo


centro geodésico do mundo
o umbigo
carvão e sal
ponto exato da criação de tudo
e da fundação da cidade que nos abriga e encarcera
com amor e avareza

cada corpo um universo
em um copo
preso aos círculos celestes
água que a tudo solve
mas não absolve pecados em pedaços

e mesmo assim tudo ressoa
tudo se liga em algum ponto

um oceano de viúvas negras
e seus ventres vermelhos como ampulhetas
espreitam no escuro
negro como pedras escarpadas e seus dentes
dois anéis de abismo
e a cópula sem libido
e o seguir atento

jardim dos deuses



Edson Bueno de Camargo


somos formigas no jardim de deus
que nos pisa distraído enquanto caminha

a terra ruge
e nos assustamos
e então nos inventamos deus
para aplacar o medo
e o fogo para matar o escuro

somos crianças no jardim do éden
em busca do esterco do crescimento
somos o pálio da explosão de uma super-nova
animal inquieto da criação

somos o galho da roseira que seca no inverno
e revive a primavera
crianças de pedra no jardim de correntes
sonhos de aço e balas de canhão

somos insetos verdes escalando a parede
ninfas de ontem
louva-a-deus em busca de copular hoje
lagartas de fogo em fúria
semente de nuncas
e facas afiadas de obsidiana preta

e contudo nem esbarramos nas saias de nossa mãe
que vaga nua no espaço de seus azuis
e seus irmãos errantes

e no entanto
térmites construímos casas e cidades
para serem derrubadas pelo vento
monumentos fantásticos para o tempo e o efêmero

somos formigas no jardim dos deuses
que nos pisam distraídos enquanto caminham

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

inadvertidos



Edson Bueno de Camargo


o olfato capta cheiros como afetos
e a primavera desaba como cristais de gelo
fere a sensibilidade da retina do vento
com a luz coada de nuvens

fechar os olhos
e se sentir flutuar de braços abertos
com o ar nas pontas dos dedos

quando pisarmos a grama nova
inadvertidos
deixaremos o perfume de nossos passos






09/02/2011

Exercício de criação nº 10
http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2011/01/exercicio-de-criacao-n-10.html

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

placenta



Edson Bueno de Camargo


vento
desenha seu movimento na grama
uma mão invisível
acaricia os pelos de um gato imaginário
que se eriçam

a terra aparenta
ser um animal dócil
mas carrega as entranhas de felino e fera
a placenta da destruição espera

nos talos e espigas
se equilibram bicos de lacre
(aves clandestinas neste solo)
o macho e a fêmea
a ensinar a colheita a seus filhotes
juntos fazem a refeição
em espreita
batendo em revoada
até ao movimento do vento


2

neste canto do mundo
os pássaros vivem suas vidas
não são parte
das tragédias que os emolduram

este sinistro conjunto de prédios de calcário queimado
e esqueletos de ferro e aço
é uma casa da dor
onde se mordem as palavras
antes de alcançarem as línguas
todas as pústulas e dores
as partes finas do corpo
delicadamente cortadas
e extraídas

3

bebo o tropeço
dos insetos ao rés do chão
em sua marcha perene
que pode abolir o tempo

onde tudo é uma máquina de devoração


4

ai de nós que sabemos
de nossas dores
e dos dias de morrer
após os dias de viver
escritos no livro dos testemunhos

e do quanto nos recusamos a esta justa medida

5

agora é hora
de só observar
e aceitar a aragem
acariciar com suavidade
a grama


hai-kais


Edson Bueno de Camargo

andam aos pares
as aves
na primavera


o bico de lacre
se farta de grãos
estação de colheita


com seu desenho
a brisa
alisa a grama


no verde gramado
o dente de leão
põe pontos amarelos


a haste pende
ao peso dos grãos
tempo de deitar pendão




(Seqüência de hai-kais compostos no estacionamento do Hospital Estadual Mario Covas ao observar um pequeno trecho de ajardinamento mal cuidado.)

gravidade



 Edson Bueno de Camargo

invertido
o enorme pinheiro
permanece sobre o nada
e as muitas correntes que o prendem
também o salvam da queda


sobre o abismo
permanece a árvore
acorrentada pelas raízes
que bebem o céu quase sem luz
e seus galhos
mergulham no abismo
chovendo suas folhas uma a uma
perdidas para a gravidade


modorra




Edson Bueno de Camargo

o sono
corcunda e torpe
(a tocar os sinos da catedral)
que vai crescendo na ponta dos dedos
em galhos secos e quebradiços
e se avoluma em tronco morto

ainda a modorra e o sonho
(das asas escalpeladas dos anjos
e quedas sangrentas)
e o mar de suor que invade
cada cavidade sem destino
a emular a febre
com sua química de mar ancestral

caminha sonâmbulo pelo mundo
do fazer de coisas e ofícios
cavar madeira para os pórticos do inferno
(a cata de palavras
o poeta a tomar a vida
do poema mudo
no pomar do Éden perdido)

não dão mais prazer o sal e o açúcar
o frio ou o calor
só o fitar sóis vermelhos
em tardes intermináveis de outono

a cada ano findo
a aproximação da aguda navalha
a contabilidade da morte

felizes os que morreram cedo
os poetas ainda jovens
os heróis
os tolos e os revolucionários
no tempo em que o espelho
ainda é só narciso
sem ter de aprender a inventariar a dor

oito cadáveres de deus



Edson Bueno de Camargo


oito cadáveres de deus
jazem lá fora
(sangue e moscas abençoados)
sobre o granito frio e molhado do calçamento
a espera que o sol nasça
e os anjos os busquem
e retornem novamente
após a chuva

:

os matei um a um
assim que nasciam
de abóbadas azuis celestes
até que tudo parou
e pude sentar nos degraus em ruína
e fumar um cigarro
como prêmio à tarefa realizada

depois dormi lentamente
atado aos teus cabelos
com a cabeça sobre teus pés
tentando entender uma passagem obscura do Zaratrusta
(Nietzsche me reprova de seus bigodes
o tempo todo)
nestes dias sem dias
que o mundo se transforma


Paraty 2006


Edson Bueno de Camargo


igreja um dia condenada a ruir
Nossa Senhora das Dores
vigia a baía de Paraty
com seus muros de pedra e branco caiado
posa para o pintor durante o dia

mais tarde a noite
o frio fazia
que me abraçasse
como querendo entrar em meu peito
e meus braços galhos grossos em tua cintura

o vento que raspava a superfície das ondas
vinha salgado e marinho em nossos lábios
ali na penumbra
éramos astrônomos persas
a tentar adivinhar os próximos anos

uma mulher ama a si mesma
no cimo no arrimo de pedra
em um canto escuro da praça
só somos despertados para sua presença
com os uivos de loba no cio
testemunho voyeur involuntário
quem sabe sua imaginação
nos colocou em um swing
do qual nunca saberemos
em nossa contemplação lunar

a lua
o motivo de estarmos lá
não só na praça
na cidade
na beira do rio
no poema

na cidade onde fiz quarenta anos
lobas uivam uma noite de orgasmos
nós
dois velhos amantes
esquecidos do medo
abraçados a observar o mar

os melhores dias de minha vida começaram

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

esboço



Leonardo da Vinci - esboço de asas

Edson Bueno de Camargo

a partir
do esboço incompleto
de uma pessoa

pode se tomar
da linha inconclusa
o traço de um pássaro

será um humano pássaro
ou pessoa
que aprendeu a bater suas asas

(?)

coisas de monstro

Pieter Brueghel, o Velho (flamengo; c. 1520/30-1569). O País da Cocagna, 1567. Óleo sobre painel, 52 x 78 cm


Edson Bueno de Camargo

cristalino perdido
dentre os dentes da alma
congelado à espera
onde se esconde o fogo

como Prometeu
esperei doar o fogo aos homens
e ao invés de calor
trouxe-lhes o frio

porque o ente humano
que caminha na certeza absoluta
torna-se um monstro
e faz coisas de monstro
e diz coisas de monstro
e será banido como tal

não espero mais o amor da humanidade
a paz celestial
ou cocanha eterna
troco por uma passagem para a nau dos insensatos

hoje
contento-me mais com uma migalha de desejo
uma velhice tranqüila
meu neto correndo pela casa
e a luz de uns certos olhos

guarda-chuvas coloridos



Edson Bueno de Camargo

a chuva esparsa
pede guarda-chuvas coloridos
nesta primavera fria
de calçadas molhadas

as andorinhas que invernam em minha rua
chegaram semana passada
em seus pequenos peitos
trazem um continente
países que nunca saberei em uma vida

o gato branco ronrona e ronda
nos lóbulos elétricos de seu cérebro
um caçador está em alerta

as árvores pendem de flores
que caem com o vento
colorindo a rua de amarelo e branco
roxo claro
as pétalas da roseira brava do meu jardim
sua alma de cinza de carmim
como desejo de brasa escondida
e as pitangas vermelhas vivas
chamas do fogo roubado por Prometeu

ai de mim que amei o humano
além das forças
transformado em Titã
pela força das circunstâncias
e poeta por amargo ofício

:
fico meditando sob gotas finas
a despeito de tantos corações vegetais
do grito das plantas
embriagadas pela estação
e de como o amor ao Sol
dá-lhe vida
e nos doam a vida

transcendida

Cozinha Caipira (Almeida Júnior - 1850/1899) 1895 - Óleo sobre tela


Edson Bueno de Camargo


a cozinha
e os picumãs
da casa da madrinha de meu pai
dominavam a casa inteira

o fogão de lenha
queimava dia e noite
em culto profano e inconsciente a Héstia
a fumaça
enovelava o ambiente
sempre envolvidos em trevas entorpecidas
com fachos de luz
cruzando do vão das telhas às paredes

menino assustado
sentia a presença
de todas as mulheres daquela cozinha
que me falavam
na língua incompreensível dos espectros
acocorados no tempo
seus pitos
suas mezinhas
seus pés descalços

a madrinha de meu pai
tinha os cabelos cinza
de uma alquimista
que sabia do caldo da cana
ao poder doce do melaço
muitas vezes transmutada e transcendida
olhos brilhantes de santidade

a noite
meu medo infantil
confortava-se ao bruxulear
das lamparinas de querosene
no escuro
adivinhava a presença de meu tio
pela brasa do pito de palha
e a voz grave de meu pai

hoje
desta noite solitária
quarenta anos saltam para trás no tempo
ainda sou um menino tonto
livre como um cão na chuva a correr no pasto

nascem secos



Edson Bueno de Camargo


homens nascidos
sob a lua minguante
ao beberem da água do nascimento
nascem secos como madeiro de esteio

vestidos de argamassa argilosa
são crus como adobe
secam ao sol
e se tornam duros
como terra batida de cupinzeiro
moldam-se ao vento
lutando contra sua direção
não se dobram
percorrem o seu desenho

no silêncio
falam línguas de fogo
e descansam nos olhos
anjos de cobre luzidio e flamejantes

aos que rebentam em julho
na procura por nuvens
quando ainda há pouca água nas cacimbas
e o calor do dia
tornam-se enigmáticos no frio da noite
quando se voltam a um ponto geográfico
como uma rosa dos ventos humana
(profetas do tempo)
determinam o lado que virá a chuva

e na velhice
estes seres
criaturas envenenadas pela palavra
passam a falar
a língua das bocas fechadas
e da fuligem dos fornos

arcam-se em reverências exacerbadas à terra
não morrem sem deixar nos pergaminhos
todos os seus possíveis epitáfios

inércia



Edson Bueno de Camargo


sonho com escadas em ruínas
e que estas se decaem a olhos vistos
escadas de terra e barro vermelho de minha infância
escoradas com madeira e estacas
descem morro abaixo
barrancos precários
a mercê da chuva
e do medo do tombo
e de andar pela enxurrada
e a chuva escorrendo pelos óculos
(embaçados)

sonho com muros azuis fechando a rua
e o impedimento de voltar ao passado
a rua de minha meninice
porque dentes de aço brilhante
já devoraram o que não existe

e o quintal de minha solidão absoluta
de onde nunca mais sai de mim mesmo
o sítio onde eu era único
e só aos olhos da chuva eu era possível
e o onanismo da auto-libido
não existe mais

e onde as bicas da água caiam
revelavam-se pedrinhas brilhantes
que um dia foram guardadas como tesouro
garimpeiro de sonhos perdidos
sonho com a estação antiga
e o trem que se vai
e junto comigo amigos também
perdidos
assistem ao comboio que vai embora

a passagem dos mortos me atormenta
suas vozes cada vez mais sonoras
e a descrença em tudo me atormenta
e a violência da paixão me abandona
e a ausência desta gera uma tortura
e que viver ainda
possa ser masoquismo
ou sadismo aos que me sobrevivem
ou uma vingança aos que não

e com inércia
a tudo respondo