quinta-feira, 7 de outubro de 2010

dívida com o mar





Edson Bueno de Camargo


quando o mar
devolver seus mortos sem sepulcro
estarei na praia
a esperar meus amigos

abraçarei seus ossos mareados
que lavarei com cuidado e zelo
e lhes darei o devido enterro
cantarei canções de ninar cadáveres e esqueletos
e lembrarei mais tarde
ao som de tambor
ao redor de uma grande fogueira
do dia em que fiquei para trás esperando

pois que eu tenho uma dívida com o mar
assim como ele me deve
por isso não consigo mais andar sobre a s águas
nem posso ter pedras dentro da cabeça
ao modo dos peixes
nem dormir agarrado a remos
no fundo de barcos de longo calado

penso nas marcas dos pés sobre a areia
e no dia que sai da casa de meus pais
para não morrer no mar

sei que lá estão meus companheiros
em paciente espera do dia
que o mar nos devolva todos a vida

5 comentários:

Jorge de Barros disse...

também estarei lá
levarei alguns cigarros para alguns deles
belo poema, companheiro

Pedro Du Bois disse...

Esse nosso (eternizado) retorno nos faz tristes. Não devíamos ter saído das águas. Excelente o desenvolvimento do seu texto, desde a idealização, vê-se. Abraços, Pedro.

Sônia Brandão disse...

Edson, penso no mar como a origem da vida - por que não também o seu término? Por que não imaginar, poeticamente, um reencontro final?
bj

« Katyuscia Carvalho » disse...

Gosto dos que têm tempo para ancorar lembranças, encalhar memórias no cais, e marcar encontros com náufragos: esta forma de não se deixar secarem os dias, afogados de alto-amar adentro.

O meu abraço.

Giovani Iemini disse...

dá uma olhada no bde em
www.bardoescritor.net

[]s