sexta-feira, 18 de maio de 2007

nunca te escrevi um soneto

Edson Bueno de Camargo


Belo tal qual o sumo dos poemas
Para elevar minha alma além do gozo
Jorge de Barros


nunca te escrevi um soneto
desta chuva de setembro, teus olhos
da primavera entrando nos poros
de maneira líquida e insone

flutuo no vácuo da morte
se te enchem luminares de lágrimas
afogo-me nestas poças salgadas
abandonar-se à maré que me trazes

nunca te escrevi um soneto
não pela falta de desejo
mas pelo fato de incompetente
estar permanente mutilado pelo verso

então te cantarei ao meu modo
em odes confusas, quebradas e incompletas
trovador, menestrel ou bobo da corte
pois és majestade em minha insolente existência

eis que te amo acima de minhas incapacidades
que na ausência de sonetos
buscarei nas tardes quentes do verão
ser uma brisa em teus cabelos

na inexistência da métrica
serei a medida de teus passos
ser a estrada em que caminhas
tornar-se suave para teu andar

na impossibilidade da rima perfeita
ser o cântico que te embala ao sono
verso inconcluso, cobertor de estrelas
Urano todo ciumento de tua amada

4 comentários:

Anônimo disse...

esse é o edson caieiro, reis ou campos?

Edson Bueno de Camargo disse...

Nunca me pensei como Pessoa, talvez Caieiro.

Leticia Brito disse...

O silêncio de um gesto de amor e maior e mais belo que qualquer palavra escrita, por isso o sofrimento do poeta de não conseguir escrever a quem ama da forma que escreve a quem o lê.

Se amassemos todos os nossos leitores não conseguiriamos mais escrever uma só linha, uma só rima, uma só frase.

Edson Bueno de Camargo disse...

Uma vez um amigo me disse que deveríamos escrever o silêncio, como fazê-lo? O silêncio como a solidão nos preenche por dentro, mas é indizível.