segunda-feira, 30 de agosto de 2010

sombrinha de doze varas



Edson Bueno de Camargo


1

sombrinha de doze varas
sobre o pano
dormem quinquilharias

“compra senhoro”
a mulher tem cabelos brancos
e sotaque romani

a cigana insiste
guarda-chuva chinês de muitas cores
buquês de flores
transbordam cores na seda falsa

(está caro
penso
não compro)

“faz mais barato
paga diferença depois”

já não ouço mais
minha mente já está longe
rouba o cinza do céu
e dos olhos que me fitam
uma certa indiferença

2

a árvore morta
serve de moldura
a fotografia que não tiro
(esta será só com os olhos)

pequenos pássaros
na distância parecem pretos
hoje o dia está com pouca luz

3

flores de dente de leão
pedem o sol
que a tarde nos nega

sua cor destoa
do que nossos olhos esperam




4

a mangueira
tem tantas flores
que lhe pedem os galhos

não sabe a planta
não estar em um vale
ensolarado do Ghanges ou do Indo

faz o papel ambíguo
de florescer neste planalto frio
a guardar o silêncio do horizonte esbranquiçado


5

nada muda o que sinto
a tarde só fala o que está dentro de mim

9 comentários:

José Carlos Brandão disse...

Edson, li seus últimos poemas - fluindo da ponta dos dedos, com a escuridão na palma da mão - isto é, com a beleza e a dor conjugadas.
Um abração.

palavras de Osho disse...

Maravilhoso.

Lara Amaral disse...

Lindo! Ah...

Beijo.

Graça Carpes disse...

Maravilhoso...Tudo!
:)

http://pulsarpoetico.zip.net

Camila Passatuto disse...

O poema começa longe e vai se aproximando até acabar (ou começar) dentro de ti, de mim...

« Katyuscia Carvalho » disse...

De repente, meus olhos encheram
de beleza enchente.
É assim quando o que habita o poeta
transborda.

Um abraço.

Sônia Brandão disse...

Edson, é sempre agradável passar por aqui.

Um abraço.

nydia bonetti disse...

Tudo muito, muito bonito, Edson. Pude ver o cenário. E este final é genial. Às vezes tua poesia me lembra muito a poesia do Brandão. Gosto demais. Dois poetas que admiro. Beijo!

Edson Bueno de Camargo disse...

Creio que eu e o Brandão sofremos de uma doença incurável, a nostalgia.
A melancolia é prima irmã da poesia.