segunda-feira, 18 de março de 2013
Malas Perdidas
Malas Perdidas
"vieram de longe
com o almanaque numa das mãos
na outra
algas subaquáticas
traziam um murmúrio
de porões na garganta
e lâmpadas enferrujadas na alma
um lamento de malas perdidas no porto
ao pegar o comboio dos pássaros
são construtores de pirâmides
de bolhas de sabão
todos eles
prestes a fábrica das delicadezas
onde a criança atenta de árvores
decifra as placas
e sua letras amarelas semiapagadas
a estrada lhes era carinhosa
como o faz a poeira em dias preguiçosos
vieram
e ainda carregam no bolso de trás
a tempestade
e ainda um navio
por baixo da palma esquerda
alguns traziam sob o braço
um baú de lamentos
(lembranças da velha terra)
bigodes amarelos
de nicotina e cachimbos de carvalho
no entanto
tinham grande disposição
de calçar as pedras triangulares
das abóbodas da nova casa
aí estava o motivo para
naquelas madrugadas que tropeçavam
no segundo ponteiro
os fantasmas ouvirem
assustados
uivo de malas perdidas
conchas a se quebrarem
e rastros sobre placas caídas
em fogo"
(Edson Bueno de Camargo & Paulo Sposati Ortiz)
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
dos 50 ou ode a Roberto Piva em meus cinquenta,
Edson Bueno de Camargo
1
uma metralhadora no hospício
este matadouro de almas
inchadas de ócio
frigideira do inferno
com banha de porco fervente
e aromáticos
a cozinhar branda e mente minha alma pequena
andei campeando nas ruas
os pedaços doces de insanidade
que roí com meus dentes quebrados
nas vésperas de meus cinquenta anos
estava longe de casa
(em plácidas paragens)
tentando entender
onde é a minha casa
este portal indecente de espelhos amestrados em fogo
que mostram cada dia
a decadência
bacia com molhos de chaves e moedas
para portas que nunca serão destrancadas
2
Shiva desfia seu rosário de galáxias
enquanto entoa seu canto e tambor
e fico preso seco
e língua
em couro de demônios derrotados
eu que recusei a misericórdia dos deuses
hoje sou cão de seus quintais
a espera de esmolas
esse poema miserável feito de ossos
de fragmentos agudos que me escarificam a pele
sendo cada escara da poesia
uma palavra
3
um relógio de sol
na sombra
uma ampulheta
sem um só grão de areia
a ausência de ponteiros
em um relógio analógico
um cobertor puído
de um orfanato inglês do século XIX
o tempo
a ausência e o frio
4
não há nobreza nenhuma em ser velho
envelhecer não nos torna sábios
talvez pragmáticos e mesquinhos
ou sempre fomos assim
(e não nos soubemos)
desenhando sombras na pedra
desdenhando à soleira da porta
o desprezo pelo sol
5
os fantasmas me cercam o tempo todo
com seus sussurros sem sentido
com suas palavras geladas e indecifráveis
eu detesto que me falem em enigmas
6
um homem não deveria viver mais que seus sonhos
(se os houvesse)
24/07/2013
(poema meu de aniversário, postado uns meses atrasado.)
(foto de Cecília Camargo )
(foto de Cecília Camargo )
domingo, 3 de fevereiro de 2013
canção de ninar
Edson Bueno de Camargo
as trincas no chão
segredam geomântica(mente)
que os armários da sala
caminham à noite nos corredores
nossos fantasmas governam a casa
e a casa enterrada nos alicerces desta
morrer é só um dos mistérios do nascimento
e quando somos crianças e velhos
as paredes entre os mundos são mais finas
acredito que nossos antepassados
nos sussurram aos ouvidos antes de
nascermos
corações cansados
Edson Bueno de Camargo
sinto o caminhar de alamedas
e os cabelos do vento
em meus ombros
como é belo
o sopro infinito dos anjos
em coro
há um espaço reservado de céu
em nossos corações cansados
agora ainda sou menino
e os joelhos em carne viva
como um santo de andor
santo sangue dos inocentes
e os cabelos do vento
em meus ombros
como é belo
o sopro infinito dos anjos
em coro
há um espaço reservado de céu
em nossos corações cansados
agora ainda sou menino
e os joelhos em carne viva
como um santo de andor
santo sangue dos inocentes
a cal
Edson Bueno de Camargo
a linha do tempo
entra pelas janelas
e conta a história
e conta a história
da casa
esta passa
pelas gerações de mulheres
de ciclos
de partos
uma mó de moer ossos
o calendário lunar
das regras e das fases
e cada geração recolhe
as velhas gerações
e se encadeiam
e se encadeiam
e triturados (os ossos) serão a cal
que dará liga a argamassa
das pedras assentadas sobre a terra
ou sob o chão
alicerce de pedras angulares
e nascimentos
sem minha mão
Edson Bueno de Camargo
tenho plantado
sementes no outono
com esperança
com esperança
que não feneçam
primaveras em meu jardim
porque flores teimam
em se abrir no inverno
sob o sol tropical
que nos engana
tenho plantado sementes
todos estes anos
com esperança que brotem
e produzam frutos
porque o inverno habita em meu seio
e o gelo em meu coração
e ainda flores
porque o inverno habita em meu seio
e o gelo em meu coração
e ainda flores
brotam na calçada
em meio a tempestades que passam
e aves que não migram
cordeiros que não se apascentam
contudo planto (ou as abandono)
e as sementes germinam
sem minha mão
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