domingo, 1 de abril de 2007

margueritas às três horas da manhã

Edson Bueno de Camargo

batem à porta e não serão atendidos
os nós do carvalho soam como sinos de bronze
há um corvo morto no jardim
que deixará de assombrar meus sonhos

tulipas maduras são hélices de fogo entreabertas
como vôos de andorinhas canadenses
atravessam o continente até a porta de minha casa
nas árvores com flores amarelas em minha rua

três cavalos negros e paramentos militares
três cavaleiros alinhados portando sabres
bandeiras de guerra
em carros de ferro e rodas ruidosas

crianças bradam sua liberdade
sem perceber o incômodo que não cansam

o asfalto das vias que se continuam
paralelas em algum ponto se interromperão
o brilho da couraça do besouro
a fuligem de suas patas
conduz a precipitações metálicas da serena tristeza da noite
quando em Berlin clarinetes conduzem arrepios
o frio estridente da Alexander Platz

ferro frio

Edson Bueno de Camargo

vós que mastigais folhas de ervas
e as próprias línguas-galho
proliferam o fumo
de louro e vulcão

vicejam em teus olhos
todos os tempos mudos
pergaminhos de palavras que não formaram escritas

vestígios de caos e caldos
frutificam videira dentro
do útero
a vinha dos menestréis de olhos vazados
a lírica sem cordas das pedras ocas
passadas ao ferro frio de um lírio

sexta-feira, 9 de março de 2007

o som que há em tudo

Edson Bueno de Camargo

hoje amanheci com um peixe dentro do ouvido
e este me contava todas as histórias desde o princípio do mundo
de quando as novas coisas ainda eram velhas
vestidas do útero da terra

corri com o chacal e senti o cheiro do medo e o gosto da morte
e me pintei com o sangue do animal que abati
e chorei seu espírito e seu sacrifício

dancei sobre o fogo dos vulcões imemoriais
e respirei de novo pelas guelras o sal do primeiro mar
dormi sob o manto da primeira longa noite
na vigília do primeiro coiote sobre a terra

e a velha anciã me levou para o topo de todos os lugares
e me apontou as estrelas que caiam do céu
e de como somos filhos delas
seus dedos magros e secos se encheram com meus cabelos
e sonhei o sonho de todas as coisas
e que eu estava em todo o lugar

chorei todas as tristezas do mundo
e minhas lágrimas correram como torrentes montanha abaixo
e meus pés criaram raízes
e me tornei uma grande árvore
e fui abatido por um grande raio
e sua voz era como o som que há em tudo
e queimei até só sobrarem cinzas
para que tudo principiasse novamente
e vi minha semente nos olhos de meu neto

óleo

Edson Bueno de Camargo

qual o tipo ideal de óleo?

para azeitar peixes
e tentar apanhá-los em cascatas orientais

para que o vermelho vivo
tome pássaro de pedra basáltica
o negro céu amanhece neve

para pássaro roca
iluminando o estreito de Ormuz
quando o Argos tomou as pedras do leme

para navios açoitarem os continentes
imperfeitos intérpretes de intestinos
e voláteis luzes

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

simetria

Edson Bueno de Camargo

línea teia seda de aranha
amarras cruzados destinos
o arcaico som que transpõe o dia
lindos caracóis das ilhas Maurício

a tamponação de um cadáver
é extremamente importante
nas primeiras horas da morte
ante o esfriamento da gordura humana
que poderá ser coletada em estruturas de jasmins
ou flores de narciso como cópulas amarelas

a repetição do temo contorna
de novo a cor azul

não retorne dos meios ocos
sóis de estrias longas
que árvores vivas plantam-se
de cabeça para baixo
ter por horizonte
doze troncos de carvalho em perfeita simetria ladeados

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

abril de 1979

Edson Bueno de Camargo

respiro flores de plástico em sua fronte
enquanto mosaicos gregos da Anatólia
reclamam de Bizâncio à sua origem

recolho as gotas de orvalho
pérolas nas pontas de seus cabelos
como as agulhas de pinheiro
na manhã de abril de 1979

chovera a pouco, e em todo o terreno alagadiço
pipocavam árias de Wagner
em voz de baixo barítono

não era o incêndio natural daqueles dias
era uma coisa nova
que cheirava a betume
e chorava flores roxas

toda a interrupção é desagradável
pode nos deixar em uma pequena estação de trem
entre nada e lugar algum
em meio a densa neblina com ares de algodão doce
onde crianças devoram todo o açúcar da terra

é irresistível olhar por debaixo da porta
quando os gansos se entopem de cerveja
e cerejas explodem como flores amarelas do Danúbio

buscar abrigo

Edson Bueno de Camargo

ungir com óleo
o rebentar de pontas de costelas
a dor de nascer de dentro de si mesmo
e andar a esmo pela rua

buscar abrigo sob às árvores
e nem aves de mau agouro te puderem suportar
e com a cor de teus desejos
escrever a carta de luz lunar
e se desfazer em cinzas ao primeiro vento da manhã

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

cabelos brancos

Edson Bueno de Camargo


derramar a seiva vermelha por horas
até que as raízes se amoleçam
em tom de branco liso e limpo

vasos de cerâmica minóica
são completados com as gotas de resina
da mastigação frenética de pequenas cigarras

o verde predomina em contraposição a xantofila dos ambientes
das casas com cadeiras amarelas
alpendres com pérgulas vivas
e vidro azul celeste em móbiles pendurados
com cabelos brancos de senhoras depois dos sessenta anos de idade

figos verdes

Edson Bueno de Camargo

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guitarras flamencas
tocam no verniz de pires brancos
servidos figos verdes e creme

folhas de menta cavalgam o colo
de insetos notívagos
entre as romãs de rubra semente
que seriam azuis em outra ocasião

romãs e figos maduros
são sexos femininos
tomados de carinhos extremos
se desmancham em gotas de deleite
ao calor tórrido dos trópicos



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úteros são flores
que nasceram para o interior da alma feminina
cujo os homens perdem no feto

somos viragos noturnos
esperando a cópula e a morte
não antes sem a lubricidade dos orgasmos
lembranças úmidas do conforto de nossas camas

teu beijo é uma galáxia
e caminho para a extinção negra e sem saída
cada vez que amo
este teu pedaço do princípio de tudo
reforma a ordem das coisas
cria e se extingue mais um universo

sábado, 3 de fevereiro de 2007

tocar as teclas

Edson Bueno de Camargo

não me permitam tocar as teclas
deste piano
esta agourenta ave branca
e seu ramo de oliveira no bico

o sono azul das velas
queimam águas dispersas
o deus velho arranca suas barbas
diante do inevitável luto
o novo acaso ri as escâncaras

a minha outra noiva
está dentro de mim
e seu retorno será a maré
que todo deserto deseja

esvaziemos garrafas verdes
e esqueçamos a noite
em pequenas taças chinesas
quando se bebem estrelas
lambendo a borda de espelhos