quinta-feira, 26 de março de 2009

olho pássaro

Edson Bueno de Camargo

um inseto com cores mudas
brilho de vidro recém quebrado
estilhaços de janelas azuis
e suas dobradiças com barulho de tempo
de lascas de madeira ao Sol e intempéries
desenho de geometrias não planas
cuja leitura traduz conhecimentos ancestrais

as roupas seguram o vento e se dobram
fazem um balé estraçalhado
os cordões esticam
os varões de bambu cortados na Lua minguante
(para nunca apodrecerem)

um olho pássaro
percorre o quintal inteiro
(sentir os pés se descolando do chão)
mesmo hoje flores deslindam perfume
a grama cresce sem que lhe aparem
as casas brancas entardecem sonolentas

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ícaro

A queda de Ícaro - Rubens




Edson Bueno de Camargo


estava Ícaro da vida

mas

as asas secavam no varal

líquida

Edson Bueno de Camargo

a chuva é fantasma
esta tarde
(e todas que a sucederão)

e tudo se dilui
nesta água que não existe
onde deslizam naufrágios de planadores com dois pares de asas
e cortes profundos na superfície

no entanto
é líquida
e se cicatriza

viço

Edson Bueno de Camargo

era uma daquelas tardes sem sonho
suor dormido
e pálpebras pesadas
com mesas e toalhas xadrez
insuportáveis
e as ondas de calor no asfalto faziam vertigens
que se no deserto
diríamos oásis

você me pediu viço
e equivocado dei mais vinho
e murchei mais um pouco
quando seus olhos ficaram opacos e distantes
(percebi que naquele momento algo entre nós se perdia)

talvez houvesse sal demais
entornado à mesa
(e quinhentos diabretes riam de nosso azar)
ou tivesse passado um pouco das dez
e estávamos irremediavelmente bêbados
e tudo que fosse vidro e vazio
jazia aos cacos no meio fio

Wall Street (ou rua do Muro)

Edson Bueno de Camargo

o poeta chora quando
libera flâmulas vermelhas
pelos olhos
e cintilam estrelas estéreis
que iluminam o céu
de uma Bagdá e seus prédios em chamas
as crianças correm atrás dos tanques
(igual a quando éramos garotos também
e o velho caminhão da fábrica passava)
as colunas de fumaça negra
são os sonhos
de um deus enfurecido
(mesmo que tenha sido esquecido)

-mãezinha hoje não tenho mãos
roubaram-nas os cobiçosos
pelo brilho do duro carbono
meus dedos brilham no colo da damas
nas noites iluminadas de Paris

não reconheço este
chicote e o sal que me jogaram nas costas
puxei o gatilho tantas vezes
que criaram calos nos dedos
e secou o arrependimento que me corria aos olhos

o chifre da lua
goteja sangue enegrecido
e aqueles que brilham
com membros decepados
descansam na beira da estrada
a espera dos comboios azuis

em Wall Street
garotos marotos brincam com nossos olhos e orelhas
em seu jogo de ganhar e ganhar sempre
fazem uma grotesca ciranda
arremessam dentes de ouro para sua aposta
brincos de besouros vivos
lágrimas congeladas no escuro
(antes os braceletes tinham suásticas
hoje estrelas de David, sob os ternos pretos)

os tijolos da Rua do Muro estão assentados
com medo e excrementos
é necessário sangue para seu lucro
são precisos porões e “cala-bocas”
chamam de dinheiro duas pequenas mãos decepadas
o dedo do gatilho calejado de fogo

o velho de barbas brancas
já não suporta mais o cinismo
e nos abandona
tudo se arca ao tempo
menos o medo dos fracos e o desejo de ouro dos loucos

crisântemos nascem selvagens na calçada
e renascem quantas vezes
a sola dos sapatos caros os esmagarem
e sempre e sempre esmagados em um círculo sem fim

tenho sede
dá-me de beber da água
que tens guardado
pois os que tem sede de justiça serão saciados
(só não sabemos quando)

tenho fome
dá-me de comer os que tem negado pão
para que fique mais caro
(e ficam ricos)

tenho sono
dá-me abrigo
nas casas que tens hipotecado e colocado em usura
(e tantos dormem nas ruas)

e não sei se dormir
volto a acordar neste pesadelo
ou no sonho

na costa da África
onde a serra parece as costas de uma velha leoa
o menino vê o mar e sorri

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

quatro sementes

Edson Bueno de Camargo

quatro sementes de maçã
sobre toalha colorida

o menino brinca inadvertido
sem que se aperceba
com quatro possibilidades de árvore

somado o menino
mais uma

gen

Edson Bueno de Camargo

nutre o gen e germe
de coisas pequenas e quinquilharias
agradas amigos e ancestrais
pedras de lugares diversos
flores secas
e gemas de facetas brilhantes e de pouco valor
ouro de mercador
moedas de países que nunca conheceremos

o sonho devora vasos e vasos de água
aqui é lugar algum

- andarilho
lava teus pés
e pousa esta noite

asas de vidro

Edson Bueno de Camargo

anjo de asas de vidro
escorrem pelas tuas costas
líquidas
escamas de peixe
perfume de pequenas margaridas
secando sobre lápides invisíveis

odor de tardes vermelhas
faz lembrar lavanda verdadeira
caídas e caladas flores roxas
em escadas de jade
lisas como o talco pedra moído e branco
no vento que move teus cabelos

pequenas salamandra amarelas
que incendeiam os olhos sonolentos
a devorar o ferro de pregos velhos em madeira podre
os ferrolhos da porta que range
sem o lubrificante óleo de baleias assassinadas na praia
o som coagulado em ferrugem fluida
que em outros momentos e lugares
chamaríamos sangue

que negro sonda a noite de corações latentes
que vibram com a música patente das colheres com pouca prata
contendo sal

abram os ouvidos do metal
para que soem sinos de dentes brancos
que brilham como as primeiras gotas ao Sol
água corrente e fresca
dos cântaros de barro fresco
alisados com seixos rolados em espuma rala
que trincam ao rápido esfriamento
(revelando-nos segredos)
o cálcio que doam os ossos da terra
quando moinhos de pás serpentes
roubam a força dos ventos
e transformam e transbordam
grão em graça

primeira chuva

Edson Bueno de Camargo

1

no caminho
uma rosa caída obre a calçada
galho arrancado á força
e deportada para o cimento

membro decepado de uma roseira
e com tal violência
que a rosa não se apercebe calçada
tem memória de roseira
e formato de pedra

2

uma escada para o nada
o vazio entre lugar algum e coisa nenhuma
nunca foi usada
de tal modo que o desmonte de horizontes
não dependerá mais só do Sol

3

há uma mecânica de devorar tempo
desde o princípio de tudo
se cultuava no caos que nos amava tanto
e nos espera
quer que voltemos ao seu ventre

4

á primeira chuva
a rosa já se embebera de morte
não era mais nada
um galho seco

comer maçã

Edson Bueno de Camargo

tenho o estranho hábito
de comer maçã olhando o horizonte
esta insondável natureza
de degustar nuvens com os olhos
em insolência aristocrática

tudo o que envolve
além do sabor da fruta
se impregna de gotas de chuva
e azul do céu

ou em tarde frias e cinzas
em que o paladar se torna fumaça
e toda a neblina do cheiro
devolve tudo como leve incenso