sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

figos verdes

Edson Bueno de Camargo

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guitarras flamencas
tocam no verniz de pires brancos
servidos figos verdes e creme

folhas de menta cavalgam o colo
de insetos notívagos
entre as romãs de rubra semente
que seriam azuis em outra ocasião

romãs e figos maduros
são sexos femininos
tomados de carinhos extremos
se desmancham em gotas de deleite
ao calor tórrido dos trópicos



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úteros são flores
que nasceram para o interior da alma feminina
cujo os homens perdem no feto

somos viragos noturnos
esperando a cópula e a morte
não antes sem a lubricidade dos orgasmos
lembranças úmidas do conforto de nossas camas

teu beijo é uma galáxia
e caminho para a extinção negra e sem saída
cada vez que amo
este teu pedaço do princípio de tudo
reforma a ordem das coisas
cria e se extingue mais um universo

sábado, 3 de fevereiro de 2007

tocar as teclas

Edson Bueno de Camargo

não me permitam tocar as teclas
deste piano
esta agourenta ave branca
e seu ramo de oliveira no bico

o sono azul das velas
queimam águas dispersas
o deus velho arranca suas barbas
diante do inevitável luto
o novo acaso ri as escâncaras

a minha outra noiva
está dentro de mim
e seu retorno será a maré
que todo deserto deseja

esvaziemos garrafas verdes
e esqueçamos a noite
em pequenas taças chinesas
quando se bebem estrelas
lambendo a borda de espelhos

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

o cal de um dia inteiro

Edson Bueno de Camargo

tomei uma lágrima
como hóstia de sangue
e me perdi na sua nova

aquela casa ainda se encontra fechada
os gritos mortos perturbam os grilos
vaga-lumes verdes
coletados na aba do chapéu

sorrisos sem carne
consumo de peixe seco
línguas ressecadas em pleno mar

a água é o sal de seus ossos
o cal de um dia inteiro
uma palavra é uma sentença
condena a palavra a ser dura

a guelra afoga oxigênio
ar peso
pedra angular da pirâmide

andar à luz do sol

Edson Bueno de Camargo

ainda a fronteira
que se rompesse a vida
lhe traria de volta
e não olharia para trás em nenhum instante

este poema
suíte de cordas ocas
o som rouco da respiração da morte


hoje ainda é tarda a noite
cacos de louça que sobraram
das esculturas assassinadas

o menino come céu por sua linha
amarra um resto de nuvem
empresta a corda a lira
caio o pano de todos os espetáculos
ruem picadeiros
ardem em fogo as lonas

não haveriam lágrimas o suficiente
para parar a chuva
e uma vez viva
recomporia a luz das sete cores
tomaria das chamas as roupas para andar à luz do sol

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

emaranhados às fibras

Edson Bueno de Camargo

ocupe-se que os gritos dos jovens amantes
fiquem emaranhados às fibras do tecido
e purifique a mistura

ao beber lágrimas
preocupe-se em coar o sangue
em virgens lençóis
anteriores às núpcias
obtendo o sal

deste branco mais puro
destile o cristal primeiro
daquele que se encontra nos prados da primeira cidade

assim será obtido o princípio de tudo

venezianas

Edson Bueno de Camargo

orgasme-se
no calor das lâmpadas
monjas insanas
bailam suas últimas dores

faça o parto de si mesmo
e parta


cuspa no mar
a água pesada chumbo grafite
o cálice de amargo absinto
transporte esferas, estelas e estrelas

neste quarto as janelas
dão
a todos os lugares do mundo

e por instinto medo
nunca espio as venezianas

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

a bela fuma cigarros

Edson Bueno de Camargo

não há halos

luz de meu entorno

são natimortos em minha presença

os rastros de luminescência

partículas capturadas pelo instante

a bela fuma cigarros na sacada

tentando fugir com a fumaça

e suas promessas de liberdade

o verdugo dança uma polca

comanda seus parvos de cinza na pocilga

constrói castelos de ossos e alicerces de sangue

anjos

Edson Bueno de Camargo


anjos quando são pedra

não sonham

deixando o sonhar

não choram

não vertem suas lágrimas ao luar

dormem na rocha

todo o instinto

até que libertam

o grito mineral

as rosas esta tarde

morderam a pouca luz de teus olhos

quando o vento soprou espelhos na praia

onde relâmpagos deram seu beijo

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

girinos azuis

Edson Bueno de Camargo

Nerfertiti grafada sobre a pele negra

suporte ideal

da beleza que cresce sobre a beleza

olhos desconfiados de Lornhons

gata de pele lisa de lontra

ainda que a loucura não passe

passemos nós

o amor é esta febre terçã

que entorna a realidade

sob a qual sucumbe a razão

sempre tive ódio do papel em branco

suas insinuações de rascunho

seu nada incomodante de princípio de tudo

depois vem as garatujas

de girinos azuis nas margens

os arabescos de uma linguagem arcaica

de antes de tudo começar

tecido cobertor

Edson Bueno de Camargo

linha de bordado
urde campos
trama altos e planos
compõe a linha do horizonte em dobrados
o trabalho da velha lançadeira

uma urze
planta que
se finca no solo com destreza
imediatamente as raízes passam a respirar terra

e deste tecido cobertor
com a lã de velocinos de ouro
cobrir as costas do velho
para que este passe a dormir tranqüilo