quarta-feira, 13 de maio de 2009

boa hora

Edson Bueno de Camargo

abutres voam baixo
círculos perfeitos
matemáticos do ar e éter
constroem rotas magnéticas
onde o centro geodésico é a morte

é necessário morrer
para que nos visitem
estes anjos alados de negro
convidados de primeira e boa hora

nossos sonhos não tem a menor importância
nossas crenças de nada valem
também posses e poses não mais influenciam

para os que banqueteiam nossas carnes
todos somos iguais e requintado
bom alimento

a morte é a única real democrática
é anti-demográfica
é voltar aos nossos mais primitivos elementos

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Goiás Velho




Edson Bueno de Camargo

a velha
o cão
e o rio

a velha cozinha poesia na velha panela de cobre e faz doces
o cão dormita o sono do mundo
e o rio corre sem pressa para a eternidade

parte

Edson Bueno de Camargo

onde em minha índole.
se esconde o ser feminino
e que me fala esta parte
ainda obscura em mim

tenho aprendido
a ouvir esta voz quase calada
sussurro suave sublime
sob subjugo cruel e impiedoso
de patriarcados e opressões religiosas

mas sinto:
carrego mais da grande mãe
da terra que criou tudo e chama tudo de volta
do que tenho me apercebido

há uma geradora de início de tudo
há uma criadora de mundos
há uma necessidade maternal
sob a pele grossa e dura
de criar a verdade com a palavra
palavra princípio feminino por excelência
pois as coisas se criam assim que nomeadas

a poesia
é a mulher onde está o melhor de mim agora

abraço

Edson Bueno de Camargo

quando fecho os olhos
um escuro sólido me envolve
confortável
como abraço
de velha mãezinha

a qual abraça o filho retornado
depois de muitos anos de guerra

teu desenho

Edson Bueno de Camargo

teu perfil
risca a noite
em perfume que indica
tua sombra
quase tátil
pelo olfato dos olhos

com ouvidos ou sem
ausente a luz é quase o mesmo
e ainda assim busco teu desenho
com o feixe nervoso da ponta de meus dedos

mesmo que com a imagem lembrada
concebo cada detalhe
ciclos passados em turvas turmalinas
estas que emprestam sua cor à noite

quinta-feira, 26 de março de 2009

diagramas

Edson Bueno de Camargo

abrir a porta
entre diagramas
de vidro recortado
por dente de diamante puro
agudo

móbiles
de equilíbrio precário
teia de aranha
gotículas

todas as linhas
de papel em branco

reconto-me

priva

Edson Bueno de Camargo

o silêncio não fala
priva
não ouve
a ausência de som

há uma folha que cai
em algum canto desta sala
pétala branca
de flor que não está viva

babilônia

Edson Bueno de Camargo

há em todos
estes edifícios

algo de
torre de babel

em língua
que todos falam
e ninguém entende

de jardim da babilônia
onde todas as plantas já estão mortas

ossos

Edson Bueno de Camargo

os ossos
são o cavo do lenho
como das árvores

onde corre
nossa seiva
desde o tempo de nossos avós

onde se formam
nós
de duro desate

são nos ossos
onde nossa alma
é mais frágil

percorrem dentro dos músculos
nos moldam e nos sustentam
e carregam o peso do tempo e do frio

também suportam
(não sem o seu preço)
dores ocultas
e inconfessáveis

olho pássaro

Edson Bueno de Camargo

um inseto com cores mudas
brilho de vidro recém quebrado
estilhaços de janelas azuis
e suas dobradiças com barulho de tempo
de lascas de madeira ao Sol e intempéries
desenho de geometrias não planas
cuja leitura traduz conhecimentos ancestrais

as roupas seguram o vento e se dobram
fazem um balé estraçalhado
os cordões esticam
os varões de bambu cortados na Lua minguante
(para nunca apodrecerem)

um olho pássaro
percorre o quintal inteiro
(sentir os pés se descolando do chão)
mesmo hoje flores deslindam perfume
a grama cresce sem que lhe aparem
as casas brancas entardecem sonolentas