quinta-feira, 10 de julho de 2008

pétalas quíntuplas

Edson Bueno de Camargo


didática de gafanhotos em marcha de devastação
cantares apaixonados por múltiplas fêmeas
lúbrica fertilidade
libido da destruição contínua
o esgotamento
a escassez
devorar e procriar até a total devastação
até que nada reste a não ser morrer

desejos prisioneiros de gotículas da chuva
pequenos universos roubados da suspensão do gelo
o amor atando tudo com fogo
e saliva
sangue
sêmen
o retorno à terra de nossos corpos


olhos de água corrente
carregam perigo
correntes de fluxo contínuo
a quebrar em pétalas quíntuplas
em brancos e amarelos quádruplos
semiótica de nuvens brancas e azul intenso
( aos poucos entendo mais e mais Elliot)

sábado, 28 de junho de 2008

estigmas

Edson Bueno de Camargo

uma ave de cor negra pari o céu
reflete nos olhos a asa escura
como a noite que habita no oco do espaço
as penas de aço impuro

dos corpos de homens manufaturados em sangue
do fogo que vem desde à escuridão do caos
dos lumes espectrais da criação
de como estrelas negras devoram a luz
do horror que preenche o nada
dos brincos de cigarra vivas em banho de ouro
da língua inflamada dos homens convertidos em abutres

incendeia seus corpos em frágeis estigmas
a fome do corpo enturva a fome da mente
as feridas que se abrem em flores cítricas
milagres santificadas e delírios
em brancas imaculadas em crescentes fractais
de uma matemática orgânica e antecessora
de círculos que se explodem para dentro do âmago

carvão mineral

Edson Bueno de Camargo

usina de crivos na carne
onde cravos vermelhos enflorescem
os fragmentos de respiro da terra
a fusão entre o fogo e o cisma

o claro espaço entre átomos
estes distantes quando estrelas
e nossas retinas a capturar esta luz tão velha
o discreto sussurro da matéria
fundida a frio e no escuro

reine o homem sobre a sua cabeça
e a mulher sobre a cabeça do homem
e um colado à planta do pé do outro
as coroas de espinhos e farpas
as palavras em fogo e água

há um vento incrustado às entranhas
um pedaço de carvão mineral e purificador
que derrame letras sobre o papel em branco
o abismo derradeiro e verídico
o espelho de almas pelo olho do outro
sem nunca saber se fitar

terça-feira, 17 de junho de 2008

hecatombes

Edson Bueno de Camargo


como podes dizer de mergulhar no vazio
quando o abismo fala mais doce hoje
e as pétalas de ontem nos convidam à escuridão
jazem no chão de outono
em silêncio pós hecatombes nucleares

possibilidades de língua de dragão
e dentes de outro elemento plúmbeo
quando o argonauta planta guerreiros armados
e ciclones na boca aberta

todo homem quer ser amado
embalado novamente em colo quente
absorver-se em um seio imenso e reconfortante
de branco papel e pergaminho
que envolve a dor de ser para sempre sozinho
no íntimo da alma desolada
quando lhe cortam o cordão e funciona a corda
triste ironia de fibras musculares e jorro de sangue

somos todos narcisos condenados
a observar nossos umbigos
cicatrizados na separação de nossa vontade
de resumir paraísos de conforto
(e nem sempre a todos de amabilidade)
quando mergulhados em água morna
e delicada penumbra
a espera de um mundo
que depois deserdados e desterrados
nunca de fato nos apropriamos

engano

Edson Bueno de Camargo

desova de libélulas
que se dá em aço esmaltado
pelo encanto que o brilho produz
emulando o calmo de um lago

cria chocada ao Sol escaldante
de onde nada nascerá vivo
gerações não se produzirão
de todos os que estão condenados à morte pelo engano

velocino

Edson Bueno de Camargo

tudo o que queria é ser uma parte (de ti que fosse)
enquanto tudo o que acontecia
eram brumas
águas dançantes
espetáculos pirotécnicos
e paradas circenses infindáveis
(aquele Parque em Paris era mais do que podia me legar;
da grama, passeios e promenades de infinito desejo)

as crianças bizarras sem membros adequados
(carregando o castigo de seus pais)
pés e pernas fora de lugar
usando asas de gato por abanos
deslizando sobre lagartas vivas e roncos de máquinas fumarentas

silvos de serpente nas copas das árvores
(que floresciam arames e flores de prata viva)
infantes e pássaros com penas de mesma cor
que alisavam o tempo todo
mostrando grande garbo
portando colares com dentes de crocodilo e roedores selvagens

a trompa do poente em arco-íris bifocal
confundindo matizes em prisma impreciso
cor de rosa e ciano misturados
utensílio inútil à esta altura da tarde
insetos de bronze tinindo signos
e flores retortas destilando o néctar que faltara aos deuses

fiei-me em teus cílios
quando me fiz pequeno (e ainda me faço)
grão que carrega a potestade
e toda sabedoria helenística clássica

pois todos os teus pelos preciso
do ouro de cada penugem invisível
de todos os arrepios que produzirem
para velocino que me abrigue

terça-feira, 13 de maio de 2008

a mesa

Edson Bueno de Camargo

a mesa para Platão
teria de ser real e tangível
quatro pernas postas no chão
um tampo de sólida madeira
que não viessem com simulacros
poema, pintura ou representação
que todos seriam banidos da “Republica”

Platão odiava os poetas que
queriam atribuir à palavra mesa
outros mecanismos
e mais propriedades de atribuição
que por falta de senso carregassem com mais sentido o léxico

os poetas por seu turno
enlouqueceram as propriedades do vocábulo mesa
dando-lhe características inadequadas à palavra
portanto afastando o objeto mesa
de sua função primordial de suportar o peso da verdade

os poetas foram salvos por Aristóteles
que em sua Poética
resgatou-os do limbo em que Platão os condenara
permitindo que se sentassem finalmente à mesa
e participassem do “Banquete”

( onde dado a ser um fausto grego
que comiam deitados em divãs
servidos por escravos
que são coisa mas pensam
provavelmente não haviam mesas nem cadeiras)

a balança

Edson Bueno de Camargo


a balança onde se mede minha cabeça
pende ora para um lado, ora para outro
tem por fiel um fio de teu cabelo
carvões em brasa servem de peso
porque quando incandescentes
buscam para si a cor do ouro

há uma brasa viva
em teu olho esquerdo
e água abundante em tua face
língua que corta
como espada da justiça de Salomão

teus cabelos chicotes de aço
retalham a pele de papiro úmido
devoro feridas abertas
com a avidez de noviço
e as regurgito em cicatrizes orgulhosas

sonho com balanças que pesam peixe na praça
com escamas que emulam o cristal mais liso
e olhos vítreos e fixos em profundo segredo
costuro pedras de peixe e círios apagados

é para a morte que o mar me convida
vagas trazem o grito do pesadelo
estouram com estrondo em meio a escuridão
vasto cemitério molhado
ondas com nomes de túmulos
sepultura que sonega os ossos dos condenados

teu olho direito me consola e perdoa
tem ali um fogo lento e caridoso
oferece teu seio direito para descanso de cabeça
ali confortável espero a sentença

sábado, 3 de maio de 2008

betume

Edson Bueno de Camargo

tua voz de farpas agudas
e morte suave
conduz meus olhos
à fusão de betume e incêndios

o vestido de eras incertas
e insetos coletados no tempo
é o âmbar de lágrimas da pedra
caminhos cruzados em trilhos de ferro
e a água que cai lenta nas madrugadas

cabelos brancos e gotículas de leite
cabelos molhados e quentes
a íris e fragmentos microscópios de quartzo

lábio que lava o mel e o fel
o amargor da dor e do silêncio
as línguas lambidas de fogo
e outros lábios
o vermelho aparente da excitação e combustão

cães correm nas ruas
e corvos posam nas telhas mais altas
olhos de glóbulos de cristal de ler o futuro
vidro, água e espuma

os podres vãos da ponte
ameaçam a desabar
a cidade não suporta a sua velha idade
se expulsa de si

anjos renegados também abençoam

constelações

Edson Bueno de Camargo

onde dragões bebem água
podem descansar suas escamas
construir escadas de jade para lugar algum
observam abelhas
pousadas em flores de dente-de-leão

professores profetas maltrapilhos
professam a fé nos sons infinitesimais
o cântico quântico de super-novas morrendo

lembra
quando grãos de poeira suspensos à luz do Sol
filtrados em frestas e orifícios
criando fachos de luz
simulavam constelações em suspensão