sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

banho-me

Edson Bueno de Camargo

banho-me em águas cruéis
enquanto observas
em cálido objeto desejo
de ser tragédia e chama

conduzo a chuva
entre medos
em puro verde e rosas pálidas

dentes-de-leão
cresceram em tua porta
porque plantas silêncios às escondidas

ri de minha tolice
a dama que desvenda os meninos
destes que choram no escuro
e se afundam nos seios das mulheres
tristes e libidinosos a buscar alento em tanta fartura
como se isso
lhes desse as respostas esperadas

devo beber deste leite
buscar regaço
na floresta úmida e trágica
ou
em nuvens de pó
deste deserto agora

os cheiros da casa

Edson Bueno de Camargo

tomei de teu olhar
o reflexo do espelho
poço de muitas profundidades

outras pedras miúdas
contidas em nuvem
na altura exata

criar uma lenta penumbra
em tardes de devaneio

entre perfumes de hortelãs e
anis que fica azul em contato com a água

teimam os cheiros da casa
se misturam aos claros de luz das frestas da telhas

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

o cubo

Edson Bueno de Camargo


ainda o útero terroso
caminha de mãos dadas
as odes ao outro calar

ruídos acompanham o passado do vento
outra ordem das coisas
buscam asilo em teus olhos


o cubo
o feminino perdido da antiguidade
de homens que se emasculam
de modo sagrado
e emanam o sangue aspergido à terra
à maneira da menstruação das mulheres

estas sim que sempre fertilizam o chão
garantem que as sementes germinem

quartos de inverno

Edson Bueno de Camargo


guardar folhas em casamatas
para os quartos de inverno
após a hecatombe nuclear

virar-se para o lado direito da cama
e mergulhar no esquecimento

observar o minguar de uma rosa em um copo
até que caiam as últimas pétalas

assim estar preparado para o poema
que cruza avenidas em tardes de inverno
esquece os caminhos dormidos
e recolhe o perfume das coisas já mortas

única linha

Edson Bueno de Camargo



dissecar com delicadeza asas de borboleta
nervura por nervura expostos
até que não reste única linha

com os pedaços de cores
montar um mapa de buscar precipícios da alma

beber as bordas da lua nova
à luz rarefeita de olhos castanho-claros molhados

ocaso da tarde

Edson Bueno de Camargo


o instrumento de percussão do grilo
preenche com sua música
todo o espaço de um quarto
ao término do dia

a escuridão que vem com o ocaso da tarde
pede aparelho mais preciso
e outro tipo de melodia

ventos alísios

Edson Bueno de Camargo

1 –

algo no poema
está entre construir catedrais de ar
e descobrir a quadradura do círculo

o poeta contemporâneo
está para reinventar a busca medieval
por um moto contínuo
ou renovar a linguagem usando apenas termos arcaicos

2 –

a corrida a favor de ventos alísios
fatalmente termina em tomar chuva pelas costas
assim como os barcos que partirão junto com as monções

terça-feira, 4 de setembro de 2007

pluma

Edson Bueno de Camargo

a palavra tem o peso
que a palavra tem
pluma breve
oferece o peso de meu coração a ti

a palavra presa
contém o breviário das horas e dos dias
e a pena que não possuí o pássaro
nem ave que não,
ama

meu fígado, não meu coração, é quem ama
e seu peso não é mais que uma pluma

a pena tem o peso
que a tinta grávida de palavra tem
pássaro breve
breviário de quem ama as horas e os dias,
leve

gelo entre os dedos

Edson Bueno de Camargo


aqui enterrei meus mortos
nesta cidade de telhas claras
e a linha do céu não se define no cinza
onde o oco da terra abriga
coleções de esqueletos brancos

ali plantei uma árvore de carne
(em homenagem ao pai mais antigo que o outro)
que serviu de suporte a meus ossos parcos
e nela jaz enforcado um cão ainda em agonia
todo o sangue obliquo de crianças vingadas
e cabelos de cascatas de cometas

há um grito surdo de mortes precoces
inocências imoladas em campos de batalha
aqueles que carregam pedras de gelo entre os dedos
e uma agonia antiga e intacta entre os dentes

um barril repleto de braços amputados, mãos
e orelhas e narizes decepados a facão
ampulhetas de linfa coagulada e reduzida a pó
pedras de peixe ( fortuna escondida no porão)
retratos de lordes emoldurados com pele humana

há um urro indolente de tesouras de aço enferrujado
prata e ouro enredados em fina tapeçaria
um coro de choros incontroláveis de mães em praça pública
em cidades sitiadas
em muros de vergonha
e campos sem cultivo
que na falta de justiça se referem a vingança com graça e apreço
há um rio que corre destes olhos
água agourenta e salgada
que devora como ácido
toda a alegria e esperança

cães sem dono

Edson Bueno de Camargo

língua de salamandra
úmida e esbranquiçada
as patas delicadas sobre vidro moído
subir em paredes é uma ciência antiga
onde anjos rebeldes
revelam a minha nostalgia

presa na traquéia
a aranha
teia veloz de encantos

máquina de comer terra
de tremer de frio com a chuva
lábios vivos e roxos
lívidas passagens bíblicas despovoadas de medo
dedos definhando em solidão
de passos apressados no corredor do hospital

(eu não tinha pressa em nascer,
poderia morrer ali e naquele instante)

no dia em que não viestes
a lascívia dormiu ao relento e só
com colheres de prata à mesa
e xícaras brancas com detalhes de flores lilases

depois o dia de enternecer
chegou tarde
lírios brancos povoaram o jardim
um impulso onírico de velas enfunadas
assassínio de ventos alísios

reli o céu e suas serpentes de prateado agudo
argutos argumentos de véus em chamas
cães sem dono na rua
vadios como nós enlaçados à noite