segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ambíguo




Edson Bueno de Camargo

um pássaro com umbigo
seria ambíguo
sua placenta
se exila de sua mãe
no nascedouro
antes mesmo do nascimento
na postura

o pássaro se desambigua
antes do ente humano
em uma exercício de desapego
muito além
de qualquer capacidade afetiva
pois o ovo
é o exílio necessário
para o vôo

isto mais tarde
lhe dará a possibilidade
de se desvincula do chão
quando do desapego
de se estar sobre a terra
vencerá a gravidade
ou a enganará segundo as medidas quânticas

há grandes vantagens aos mamíferos bípedes
crescer dentro da progenitora
mas crescer desgarrados ao contrário
nunca querem vir a luz de fato
primeiro o paraíso depois a vida
terão da altura vertigem
nunca serão capazes de voar
(ao menos alguns de nós)

répteis

Foto a partir do satélite Ikonos -Space Imaging do Brasil / Geoeye



Edson Bueno de Camargo


vomito cobras vivas
cinco ao todo
répteis que caem ao chão
e fogem assustados
ainda úmidos
sulcam a terra
desaparecem na poeira

pajés do planalto central
visitam meu devaneio
saltam de dentro
de nuvens de fumaça branca
cheiram a querosene e tabaco
pólvora queimada e pinga
moeda cachaça para todos os santos
para juremas
para os caboclos errantes
para os egúns vivos quase mortos
que caminham pela civilização
e têm nos olhos telas brilhantes e antenas

não se sabe
se é noite ou dia
céu vermelho sobre a cabeça
tempestade de areia do Saara
dormindo nas águas quentes do Caribe

câmeras assustadas filmam o abismo
desvelam línguas e palavras
uma menina pivete desafia a polícia
com seu corpo magro e olhos de assombro
um diamante vivo em cada pálpebra
Glauber Rocha ressuscitado em Brasília
dirige tudo aos berros e euforia
(como todo bom baiano
sorri irônico como um Caetano)

tudo é sonho
tudo é vermelho
tudo cheira a esgoto a céu aberto
tudo cheira a vidro quebrado e hospital

as mesas dos botecos se embriagam
devoram as palavras que os poetas lhes derramam
lambidas por lagartos abissais
a cidade (e suas asas)
é um poço sob os discos voadores

degraus vermelhos




Edson Bueno de Camargo

a velha casa
espera-me em sonhos e pesadelos
como o desvão
de fraturas no cimentado
e nos vãos da calçada de tijolos refratários
(e suas superfícies vítreas)

assim como as rangedoras portas e janelas
taramelas que cantavam
anunciando as chegadas e partidas

os lumes tentavam
desesperados furar o escuro da noite
onde vaga-lumes verdes
emitiam estranhos sinais
e olhos infantis e medrosos
viam coisas em meio às sombras

noites sem lua
noite de assombro
de ouvir as formigas subindo na parede
e monstros sorridentes sobre o guarda roupa

piar de coruja
nos velhos esteios
silvo de vento que cortavam
as dobras dos corredores

a velha casa
sobrevive ao seu fim
a jovem que cresceu sobre suas raízes
ainda é árvore de seus tijolos

o tempo não comeu suas paredes
de argamassa de caulim e terra
de reboco que mostrava suas veias no verão
na caiação trincada
desenhando mapas imaginários
de lugares inexistentes
(mas ali presentes)

a velha casa
e sua varanda de degraus vermelhos
carrego-a nas costas
o tempo todo

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

dívida com o mar





Edson Bueno de Camargo


quando o mar
devolver seus mortos sem sepulcro
estarei na praia
a esperar meus amigos

abraçarei seus ossos mareados
que lavarei com cuidado e zelo
e lhes darei o devido enterro
cantarei canções de ninar cadáveres e esqueletos
e lembrarei mais tarde
ao som de tambor
ao redor de uma grande fogueira
do dia em que fiquei para trás esperando

pois que eu tenho uma dívida com o mar
assim como ele me deve
por isso não consigo mais andar sobre a s águas
nem posso ter pedras dentro da cabeça
ao modo dos peixes
nem dormir agarrado a remos
no fundo de barcos de longo calado

penso nas marcas dos pés sobre a areia
e no dia que sai da casa de meus pais
para não morrer no mar

sei que lá estão meus companheiros
em paciente espera do dia
que o mar nos devolva todos a vida

sexo dos insetos



Edson Bueno de Camargo




1

este ano
o inverno foi mais duro
nossos ossos ressequidos? gastos?
desenham o frio em cada cristal de cálcio
depositam flores de crisântemo
sobre o barro cozido

as estrelas mortas
vivem, em nós
fizeram-se carbono e carne
e querem nos devolver á terra
nossas dores pedem descanso
mortos não sentem nada

a água já não mata a sede
é amargo o alimento
morrer é como dormir
nos braços da mãe
sem ter de acordar depois
neste estranho salmo sem deus

2

o silêncio da casa
tenta estancar
o vento
que jorra lá fora
( o céu enferrujado engendra
furacões em seu ventre)

as flores da pitangueira
caem estéreis
sem o sexo dos insetos
não pode haver frutos nesta primavera

os sapos coaxam a noite
que hoje
se constrói sem lua e estrelas

sangue



Edson Bueno de Camargo



1

dançarinas de ventre
rodopiam espirais
na chama sagrada

cabelos com espigas
e vindimas
umbigos iluminados

2

olhos de gato
(deuses guardiões)
visão de escuro
um punhal em miniatura

tudo se repete esta noite
desde a noite primeira

unhas e dentes ferozes
matam e sangram na graça

a beleza também está
na seiva humana
que verte nas pedras

3

os deuses não bebem sangue
de ímpios e impuros
os deuses bebem nosso sangue
se merecermos

mas nosso sacrifício é em vão
se o coração verdadeiro não for imolado
só o amor é a paga perfeita
só que nos é mais caro é dádiva

4

na sala dois relógios parados
como se o tempo não perpetrasse ali
como se na falta de horas e minutos
outra coisa fosse devorada

a morte do tempo é a entropia
não é possível vida
sem morte

tátil e cego



Edson Bueno de Camargo



enquanto corro
os dedos em tuas costas elétricas

minhas narinas
devoram tua pele e pelos
naquilo que são fogo
e cada contorno volátil
é abrigo e assento para meus olhos



tátil e cego é o amor
nos abismos florestais
ou ralas pradarias
pois tudo é triangulo e ravina

posso lamber teu cheiro esta noite
e nas outras e outras
e as gotas
da chuva de pentes para cabelos
e pedestais e pedrarias



estar em ti
é tudo que posso e quero

profecias


Duda Groisman/FotoRepórter/AE



Edson Bueno de Camargo


para Roberto Piva

o velhote
(e suas barbas cinzas)
devora as pedras do calçamento
risca fogo
com seus dentes de urânio
e nicotina pétrea

papeis soltos
em meio ao vento
remoinhos
acalentam o meio-fio desta cidade de plástico
todos com cuidado coletados
(podem conter os nomes de deus)

restos de nobreza
em frangalhos de sedas e brocais
(mantos cerimoniais e clericais)
sua carruagem
de pneus arruinados
e alma de geladeira devastada

sua fome de granito
contorna a tormenta da tarde
pedras devolvidas
em graduais ondas de palavras

o senhor de cabelos de fios elétricos
cinza telefônico
é perfeito arauto de seu tempo


o velhote é um profeta
mas não o ouvimos

meteoros

Chuva de Meteoros (The Perseid Meteor Shower)


Edson Bueno de Camargo

encontro o deserto em mim
caminho semana em trilha rasa
as pedras dormem aos meus passos
onde brotam espinhos e flores

o espaço se corta em dois
e cantam as estrelas
os cântaros de aquário
nunca se esvaziam
e teu olhar é um rosa de seda azul

minha língua em chamas
te cobre de cintilações
e colhem os vespeiros maduros
de um mel grosso e escuro
(tempo de macieiras em flor)

aninho me na areia
como cama macia
sou vigiado por escorpiões vermelhos
e o chacal
sonho com uma mãe terna
a me abrigar com seus zelos

no sonho nosso amor
une átomos e estrelas
enquanto estou a mastigar
todos os meteoros possíveis
de teus cabelos




Exercício de criação 2 – Gambiarra Literária
19/08/2010
http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2010/08/exercicio-de-criacao-2.html

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Prêmio Blog de Ouro.



Recebi este selo como agrado do poeta Assis de Mello, ao qual agradeço, que me deu como incumbência, distribuí-lo a mais dez blogs, com grande dificuldade em separar amigos, estou repassando à estes dez que seguem na lista, que recebem a tarefa de fazer o mesmo. Dez é um número pequeno para coisas ótimas que tem por ai.

Que tem me acolhido tão gentilmente - 
http://serescoletivos.com/

Duplamente Venusiana - da Sara Helena/Filhote de Lua
http://duplamentevenusiana.blogspot.com/

Do grande poeta José Carlos Mendes Brandão que tem de ser lido.
http://www.poesiacronica.blogspot.com/

Lobas que Correm – blog que fala e desvenda a psique feminina.
http://lobasquecorrem.blogspot.com/

O ofício do ócio de Jorge de Barros, para lembrar que escrever também é um ato de preguiça.
http://ooficiodoocio.blogspot.com/

Do poeta confrade José Geral do Neres, parceiro de luta e poesia,
http://neres-outrossilencios.blogspot.com/

Do poeta necessário Lau Siqueira
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

De la maestra Beth Brait Alvim pela delicadeza/crueza de tuas palavras.
http://www.bethbraitalvim.blogspot.com/

Da poeta da imagem Sônia Brandão, poesia e fotografia
http://passaroimpossivel.blogspot.com/

Das Loka – Ativismo GLTB organizado entre ótimas pessoas, sendo uma delas o meu primo o poeta André Camargo (Porque direito é para todos.)
http://www.daslokabrasil.blogspot.com/