segunda-feira, 22 de junho de 2009

pedra

Edson Bueno de Camargo

para Jorge de Barros

esconde a face
dos exilados
objetos em pedra

pedra-pão de duro comer
dente de cerâmica preta
e corte de obsidianas

pedra-pé
e suas plantas voltadas
faces à terra seca
ranhuras de rocha viva
famílias de pedra
nomes minerais
vermelhas

leprosários remotos
para exilar todo aquele de cepa rara
os que não coagulam
os que não coadunam
falam em língua de fogo
(como profetas)
e ferroadas de zangões

ao abandono
da palavra esfacelada
mica de pedra
sal
que se perde em graus
e os gumes de cobre

ainda seca a boca
a sílica do amargo da terra
blanco


aqui está o cálculo calcinado de enxofre
fogo PROMETido
que queima lento e doloroso

outono

Edson Bueno de Camargo


a rua
desdobra
em passos úmidos
neste outono
antecipação de forte inverno

o inverso da casa
é o desabrigo
buscar nas luzes confusas
o farol
o relógio
a alfanje

a ilusão que em tudo permanece
é o mesmo tempo agora
o que foi no princípio de tudo

suspeita-se que ainda é o passado
e este momento
um sonho ruim

terça-feira, 16 de junho de 2009

régua

Edson Bueno de Camargo

André e sua régua de medir mundos
caminhar por cadeiras altas
como cadeias montanhas
a tomar a medida de tudo
do batente da porta à ponte
em processo de construção do sonhar

André e seu apito de trem imaginário
o vapor e a fumaça preenchem a casa
de trilhos barulhentos e máquinas pesadas
coisas de construir coisas encadeadas
seu trenzinho azul da cor do planeta
a conduzir o arco-íris da luz de seus dentes

nada é por acaso

Edson Bueno de Camargo

esta noite
e seu cardume de sonhos afogados
água turva
que cobre o corpo da desesperada e inocente suicida
e seu colar de flores e ramos silvestres

(não confiou no canto do amado
que louco lhe confessou tudo)

cobre a superfície desta poça
de vidros e escamas
e tudo mais que é transparente e brilha
canto lírico
de barcos à deriva e a tripulação louca
rebentam em bancos de areia
onde esperam sereias
seduzem para o banquete

nada é por acaso
muito menos esta noite estreita de obuses
campos incendiados
em uma sinfonia de graves desafinados
de trompas mudas como a voz dos elefantes
(no entanto escuto)

a chuva cai
indiferente
assim como as lágrimas
assim como o calar

palma

Edson Bueno de Camargo

derramar
da palma da mão direita
toda a escuridão líquida
que se acumula

aprofundar
no vaticínio do sonho
medo do absurdo
de que ainda respiro
o mesmo ar a procura de guelras
que não estão

o ouvido queima a cada acorde
do dissonante som
do universo que nasce ainda

a ausência da luz devora mundos e estrelas
grito mudo da destruição
rompe o espaço
como uma luz que não existe mais

nas asas da borboleta
ao ruflar agora
todos os códigos decifrados da teoria do caos
pois tudo é conseqüência
de um único gesto

domingo, 17 de maio de 2009

não sou mais sábio

Edson Bueno de Camargo

minha mãe olha-me a face
veja que os fios de minha barba
imitam o algodão ao Sol
como teus cabelos

agora estou tão velho como tu
e no dia que mais quero os teus braços
sou tão pesado que nem posso me carregar

minha mãe
o tempo passou para nós
e não sou mais sábio que ontem
dos meus dias de herói
só carrego cansaço
da trajetória que sei
só o caminho dos astros no céu
à passagem do zodíaco

mas ainda posso ver o Sol nascer
pelo vidro de meus óculos
esquentar o frio da noite das canelas cansadas
na quenturinha do sentado na soleira da porta da rua

minha mãe posso dividir um sorriso
e te abraçar um abraço amigo
te recontar histórias e cantigas
antes que o dia termine para nós

vísceras sentimentais




Edson Bueno de Camargo



mulher que amo com as tripas
que teu amor me alimente
que se avolume no ventre
que se ruminem as renúncias
digira todas as dúvidas
e o amor seja longo e contínuo

mulher que amo com os pulmões
que se inflem em fogo a cada respirar
queimando cada gota de oxigênio
em tua homenagem
e este amor me deixe sem fôlego
e a cada beijo carbono
não me sufoques nunca

mulher que amo com o coração
que todo meu sangue não seja suficiente
que se esculpa com carne e gelo estrutura
das todas que se constroem em vermelho vivo
que seja corda incontrolável
de relógios que devoram o tempo
e ainda assim permanecer o amor

mulher que amo com músculos e tendões
que minha carne te vista no frio
e se não suficiente uses minha pele
cubra a tua nudez toda noite
que seja tão quente cobertor
que não mais sintas frio nunca
para que não te esqueças no claro
este amor

mulher que amo com o fígado
e sorvas bílis como prova de amor
amor cultivado em humores com ódio
até que os olhos se esverdeiem de vez
mas que adestres esta toda cólera que trago
porque a fêmea é a domadora do macho
e é teu ventre geratriz do universo

mulher que amo com o baço
e converta esta douçura em açúcares
que bebes com lábios ávidos
onde toda a dor não é amarga
e convertas todo fel que há bebido antes

mulher que amo com os rins
e produzo jóia elástica
pedras de calcita e sal
para construir castelos de sonhos
e dedico a ti todas as cólicas
e a tortura nauseante
de estar dependurado em parede

mulher que amo com a gônadas
e por ti imito Urano se necessário
e sem estas ainda sou teu escravo
mas se me preservas
serei de teus desejos criado

e contudo que sou um homem
de vísceras sentimentais
pois te amo com o corpo todo
além do sublime desejo

quarta-feira, 13 de maio de 2009

pálpebra

Edson Bueno de Camargo

a minha pálpebra esquerda
carrega o peso de uma casa
casa de amplos ambientes
salas e objetos em desordem

o peso cronômetro
aumenta ao movimento do ponteiro
a minha pálpebra canhestra
já desdobra
como um vício

porque a água que a casa traz
já comeu séculos de vento
e a chuva precipita à chegada da tarde

monjolos batem igual a um ponto
batuque de grão esmagado
ritmo sem pressa da farinha grosseira
das que os dias nunca terminam
e nunca ninguém passa fome

a pálpebra verga à noite
quando finalmente durmo

asas de anjo

Edson Bueno de Camargo

livro com asas de anjo
traz palavras de ave
penas brancas ou azuis
poemas inflados de ar
palavras de peso menor
nunca chumbo, pedra ou dor

asas de morcego podem conter
a última luz do luar
flores de dente de leão (em fuga)
ronronados de gatos pequenos
canto do galo que acorda o sono
as coisas que foram esquecidas

um livro que voa à noite
tem que posar à tardinha
pôr-se a dormir em seu ninho
a digerir os sonhos roubados de véspera

boa hora

Edson Bueno de Camargo

abutres voam baixo
círculos perfeitos
matemáticos do ar e éter
constroem rotas magnéticas
onde o centro geodésico é a morte

é necessário morrer
para que nos visitem
estes anjos alados de negro
convidados de primeira e boa hora

nossos sonhos não tem a menor importância
nossas crenças de nada valem
também posses e poses não mais influenciam

para os que banqueteiam nossas carnes
todos somos iguais e requintado
bom alimento

a morte é a única real democrática
é anti-demográfica
é voltar aos nossos mais primitivos elementos